• 8 de maio de 2021

No futuro toda vovó vai tomar um chazinho de maconha

 No futuro toda vovó vai tomar um chazinho de maconha

Quando pensamos em nossos avós o primeiro pensamento que vem à nossa mente provavelmente seja de serenidade. De carinho, de uma casa e sofá coloridos, de calendários pendurados na cozinha e boa comida.

Outros irão lembrar que os avós nos defendiam de nossos pais quando aprontávamos alguma. Também podemos lembrar que toda vovó e vovô gostam de sentar e tomar um chá, café ou chimarrão calmamente.

Eu não sei se a mistura de cannabis com café vai ornar, mas um chazinho de maconha ou algumas florzinhas de cannabis sobre a erva do mate, logo deveriam se tornar recomendação médica para nossos idosos.

Sabemos desde sempre que há uma estreita relação entre envelhecimento e o aparecimento de várias doenças, principalmente doenças neurológicas, psiquiátricas. Ou de perfil inflamatório e doloroso, tais como: demências, depressão, lesões crônicas, dor, artrose e outras.

A novidade é que nos últimos anos estamos descobrindo que há uma relação inversa entre envelhecimento e o sistema endocanabinoide. Este sistema é responsável, entre outras coisas, por produzir transmissores endocanabinoides.

Os endocanabinoides possuem várias funções no nosso organismo, mas, sobretudo auxiliam a manter o equilíbrio (homeostasia) bioquímico de nosso corpo. Isso ajuda a regular funções como memória, humor, dor, inflamação, sistema imunológico, nutrição neuronal e várias outras.

Assim, à medida que envelhecemos, produzimos menos endocanabinoides e também produzimos menos proteínas (receptores), que são ativadas por estes transmissores.

Ou seja, idosos possuem baixos níveis de endocanabinoides e os baixos níveis dessas moléculas que possuem tantas funções importantes torna os mais velhos mais suscetíveis a várias doenças.

Esta relação inversa entre envelhecimento e atividade do sistema endocanabinoide pode ser considerada parte de uma síndrome recentemente cunhada pelo pesquisador Ethan Russo, que se chama Deficiência Clínica de Endocanabinoides.

O médico e professor Russo, que não é russo, demonstrou que pessoas com baixos níveis de anandamida – o principal endocanabinoide produzido pelo nosso corpo – têm maiores chances de apresentar doenças do sistema nervoso central e inflamatórias.

Um artigo recente, porém já clássico publicado na prestigiosa revista Nature em 2017 demonstrou que baixas doses de THC, o principal princípio ativo da cannabis, melhoraram a memória em ratos velhos.

A explicação deste artigo para este fenômeno foi que o THC induziu o crescimento e nutrição de neurônios de uma região cerebral chamada hipocampo, essencial para a formação de memórias e também aumentou o número de proteínas receptoras de canabinoides.

Ou seja, este canabinoide da planta cannabis recuperou a memória dos ratinhos velhos mimetizando e reforçando o sistema endocanabinoide nos próprios ratinhos.

Além disso, sabemos que os canabinoides, sejam da planta ou do nosso organismo, apresentam efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes muito importantes.

Justamente a inflamação e o estresse oxidativo são fenômenos finamente relacionados ao nosso envelhecimento. Assim, substâncias que reduzem a inflamação e o estresse oxidativo, como os canabinoides, possuem efeito antienvelhecimento.

 Outro fator importante relacionado ao envelhecimento é a função neuronal. Doenças neurodegenerativas como Parkinson e Alzheimer, por exemplo, surgem como consequência da morte de neurônios específicos e a neuroinflamação e o estresse oxidativo são algumas das causas principais da indução de morte neuronal.

Assim, alguns pesquisadores sugerem que os canabinoides podem no futuro ser indicados para qualquer cidadão que atinja 60 ou 65 anos.

Poderíamos fazer um paralelo à reposição hormonal, que é aplicada mais comumente a mulheres após atingirem determinada idade ou a menopausa. A reposição hormonal existe para repormos substâncias, neste caso hormônios, que nosso corpo não produz mais ou produz em baixa quantidade.

Da mesma forma, a administração diária de canabinoides para idosos, que eu chamo de reposição canábica ou reposição canabinoide em uma palestra do TEDxUnila, teria como principal objetivo repor os endocanabinoides que deixamos de produzir quando envelhecemos.

Seguramente nos próximos anos evidências surgirão para embasar um protocolo de reposição canabinoide para maiores de 60 anos ou para pacientes com risco de desenvolver tais doenças citadas acima.

A reposição canabinoide teria como objetivo principal a prevenção, mas também o tratamento de doenças de perfil neurodegenerativo, inflamatório ou de estresse oxidativo.

Minha mãe, por exemplo, 64 anos, sofria de dor crônica e depressão há quase 20 anos e havia experimentado poucos períodos de uma boa resposta ao tratamento com antidepressivos e analgésicos. Há quase dois anos está tomando extrato de cannabis rico em THC em baixas doses e nunca se sentiu tão bem como nestes dois últimos invernos.

Recentemente, ela ficou vovó e agora com disposição e sem sentir dores, passa horas carregando e brincando com os netinhos. A vovó é só felicidade e não quer saber de largar os netos e tampouco suas gotinhas de maconha diárias.

 

Francisney Nascimento

Francisney Nascimento

Francisney P Nascimento - Farmacêutico e Mestre em Farmacologia (UFSC). Doutor em Farmacologia (UFSC/Dalhousie University). Pós-doutorado em Neurofarmacologia (McGill University). Professor de Farmacologia Clínica e de Canabinologia Médica nos cursos de Medicina e Mestrado em Biociências na UNILA (Foz do Iguaçu). Coordenador do Lab de Neurofarmacologia Clínica. Realiza pesquisa clínica com canabinoides desde 2017. Instagram: neypnascimento

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