• 17 de agosto de 2022

Entenda as doses e concentrações da Cannabis

 Entenda as doses e concentrações da Cannabis

Para quem é paciente, prescritor, farmacêutico ou interessado no assunto, sabe que na clínica canabinoide se usam a todo momento várias expressões para falar sobre quantidades, doses e administração de extratos de Cannabis e canabinoides. 

Percebo que há muita desinformação, desentendimento e ignorância (no sentido puro, de desconhecer) quanto a isso. Por este motivo, pensei em elaborar esse texto, de uma forma curta, simples e didática para ajudar pacientes e médicos. 

Químicos e farmacêuticos verão que muitas coisas serão simplificadas e algumas omitidas para não complicar. 

Então, reitero, o objetivo do texto é simplesmente demonstrar como entender e calcular doses de extratos de cannabis para profissionais, pacientes e cuidadores não especialistas no tema medicamento/química. 

Como funciona o óleo de cannabis

Quando falamos em Cannabis no Brasil hoje praticamente estamos falando apenas sobre óleos. Neste caso, o que chamamos de óleos são produzidos à base de extratos. Extratos são soluções (líquidos) extraídas ou produzidas a partir de partes da planta da Cannabis, normalmente das flores, que são as partes da planta que mais possuem os canabinoides. 

A forma farmacêutica mais comum de apresentação de medicamentos e produtos à base de cannabis, neste momento, são, portanto, os extratos e óleos. 

E por este motivo, por serem extratos (líquidos) e não comprimidos (sólidos), usa-se muitas vezes a porcentagem em lugar de apenas dizer 10, 20 ou 50 mg de medicamento. 

Mas afinal, você sabe o que significa quando dizemos: “estou tomando um extrato 5% de CBD”. Mas que cargas d’água é isso? Isso é bastante ou pouco?

Dose, posologia ou concentração?

Primeiramente temos que deixar claro que quando falamos de porcentagem de Cannabis, canabinoides ou qualquer fármaco, não estamos falando nem de dose e nem de posologia. Começou a complicar? Vamos lá:

  • Dose: é a quantidade de fármaco ou princípio ativo em uma formulação (líquida, extrato ou comprimido, por exemplo). Normalmente essa quantidade, ou seja, dose, é expressa em miligramas (mg).

 

  • Posologia: é a quantidade de medicamento (dose) que um paciente toma em um determinado intervalo de tempo. Por exemplo, a posologia deve constar na receita médica: tomar 500 mg de paracetamol a cada 6h. Outro exemplo: tomar 1 comprimido de fluoxetina de 20 mg 2 vezes por dia. 

 

  • Concentração (aplicação mais prática para Cannabis): é a quantidade de um fármaco (pode ser em mg) e um determinado volume (mL ou litro, por exemplo) e que pode ser convertido para porcentagem. Vamos por partes e com exemplos.

Qual os significados das porcentagens?

Então, quando falamos que estamos tomando CBD 5%, de qual dose estamos falando?

Nenhuma dose ainda. Porque porcentagem não é dose e não é a porcentagem de um medicamento que vai te tratar. É a dose! 

A porcentagem em uma solução se define por quantidades de grama a cada 100 mL. Ou seja, uma solução 1% significa que temos 1g diluídos em 100mL.

Mensagem principal do dia:  1 g diluída em 100 mL  —>  1%. 

Mas 100 mL é muita coisa e nossos medicamentos normalmente estão em frascos de 30 ou 50 mL e nos recomendam tomar 1 ou 2 mL, normalmente. 

Além disso, eles têm no rótulo uma quantidade expressa em “mg/mL”, ou seja, dizendo quanto tem do produto em apenas 1 mL. Vamos então passar a porcentagem que se refere a 100 mL para apenas 1 mL

Se temos 1 g em 100 mL e isto é 1 %, quanto temos em 1 mL

Basta dividir tudo por 100.

1 g/100 = 0,01 g ou 10 mg. (curva desloca-se três casas para a direita e grandeza g se transforma em mg).

100 mL / 100 = 1 mL

Logo, temos 10 mg/1 mL. Então, 1% é 10 mg/mL. E isso vale para qualquer fármaco em solução. 

Pode memorizar, 1% é 10 mg/mL. Sempre!!!

Então, agora tudo está fácil e cristalino. Queríamos saber quanto era o CBD 5%. Ora, se 1% é 10mg/mL, basta multiplicar por 5 e sabemos que 5% é 50 mg/mL.

É isso, 5 % é 50 mg/mL.

Certo, tudo resolvido, então a dose que o paciente está tomando é 50 mg/mL?

 

Não, 50 mg/mL não é dose, é a concentração. Sim, a concentração pode ser expressa em porcentagem ou em mg/mL e ainda de várias outras formas.

Lembremos, dose é quantidade, pura e simples sem estar relacionada com volume (mL). Assim, imagine que você tem um CBD 5% e o seu médico prescreve 100 mg de CBD para você tomar. A conta é a seguinte:

Seu CBD tem 50 mg/mL e você precisa tomar 100 mg de CBD. Só usar a saudosa regra de 3:

Se seu CBD é             50 mg  –> 1 mL           

Você quer tomar      100 mg –>  X

50 mg. X = 100 mg. 1 mL

X= 100 mg.mL 

  50 mg

          X= 2 ml.  

Ou seja, você precisará tomar 2 mL para ingerir 100 mg de CBD. A dose de CBD que você toma é de 100 mg. Esta é a quantidade que seu corpo vai receber e que será necessária para promover o efeito farmacológico. 

Então, veja que falar que toma um CBD 5% na prática não diz nada, porque é necessário saber qual o volume que você toma para saber de fato qual a quantidade (em mg) de CBD. 

Pois, é a quantidade (dose) de CBD que chegará na sua circulação sanguínea e da circulação chegará até seus órgãos e tecidos, e lá nos tecidos que o CBD vai causar efeito. 

Então o que interessa  para o efeito do medicamento, é a massa, a quantidade, ou seja, o quanto em mg que você está tomando. 

O que é um extrato 2:1? O que diz a proporção?

Da mesma forma, outra complicação comum que pacientes me buscam para perguntar: recebi uma prescrição com óleo THC/CBD na proporção 2:1, ou seja, para cada duas moléculas de THC tem 1 molécula de CBD no produto. Isso é indicado? 

A proporção diz ainda muito menos que a concentração, apenas diz que tem mais CBD ou THC. Mais uma vez, o que mais importa para um efeito farmacológico é a massa do fármaco. 

Então, além da proporção precisa saber a concentração, e além da concentração precisa saber a dose necessária de cada canabinoide para o efeito desejado. Sabendo a dose, se calcula o volume necessário para administração, como explicado acima. 

Mas sim, a proporção é interessante e válida, pois temos doenças que sabemos necessitam mais CBD, mas o THC junto pode ajudar (efeito entourage). 

Ou o contrário, precisa mais THC e o CBD junto que vai ajudar. Sim, é válido, mas só isso não é suficiente porque proporção não é dose. 

Só tem efeito se estiver ligado ao organismo

Teve um rapaz muito inteligente há algum tempo atrás, chamado Paul Ehrlich. Ele ganhou o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1908 por sua contribuição para a humanidade na área de quimioterapia. 

Mas ele fez muuuuito mais, e entre suas descobertas principais destaca-se o enunciado “Corpora non agunt nisi fixata”, algo como, um medicamento só faz efeito se estiver ligado a algo em nosso organismo. 

E este efeito é referente à quantidade ou dose (massa – mg) de fármaco disponível.  Portanto, concentração ou proporção não dizem nada por si só se queremos falar em tratamento e efeito clínico. 

No Brasil apenas se vende THC < 0,2%. Dá nada!?

Uma outra questão importante na legislação atual do Brasil é a especificidade que os extratos de Cannabis normalmente possuem THC menor ou igual a 0,2%. 

E no senso comum, isto é uma dose baixa, ou mais que baixa, desprezível. Não é: Vamos ver quanto é 0,2% de THC?

Nossa regra de ouro diz: 1% é 10 mg/mL. Sempre!!!

Então, 0,2% é 2 mg/mL. Desta forma, uma solução 0,2% de THC tem 2 mg/mL. O THC começa a causar efeitos psicoativos (inebriantes) em torno de 20 mg, ou seja, se você tomar 10 mL deste medicamento poderá ficar “chapado”. 

Ok, tomar 10 mL é raro, no entanto, pode acontecer. Além disso, terapeuticamente 2 mg de THC, principalmente quando associado ao CBD pode ser útil para muitas doenças, como depressão, fibromialgia, dor, doenças inflamatórias, doenças neurodegenerativas e outras. 

Quem disse que os 0,2% de THC não são o suficiente?

Então, o 0,2% de THC que a legislação brasileira permite na maior parte dos fármacos não é uma quantidade desprezível, seja para causar efeitos adversos ou para promover efeitos terapêuticos, pois, já vimos aqui que o THC tem muito mais afinidade por receptores de nosso organismo do que o CBD.

Por isso, em doses bem mais baixas é capaz de induzir efeitos interessantes. Resumindo, um óleo com THC 0,2% pode ser muito útil para várias doenças. 

 

Portanto, proporção e concentração não são informações suficientes para direcionar um tratamento farmacoterapêutico. 

Dose reajustável

Porém, os fármacos canabinoides enquanto apresentados como solução (líquido) trarão estas informações.

Uma vantagem desta apresentação é que o médico, farmacêutico e paciente podem titular o medicamento, ou seja, reduzir ou aumentar a dose até encontrar a dose ideal, se necessário. E notem a expressão, a dose ideal. 

Não falamos em encontrar a concentração ideal, porque, como disse Ehrlich, é a dose que faz o efeito 🙂 

Francisney Nascimento

Francisney P Nascimento - Farmacêutico e Mestre em Farmacologia (UFSC). Doutor em Farmacologia (UFSC/Dalhousie University). Pós-doutorado em Neurofarmacologia (McGill University). Professor de Farmacologia Clínica e de Canabinologia Médica nos cursos de Medicina e Mestrado em Biociências na UNILA (Foz do Iguaçu). Coordenador do Lab de Neurofarmacologia Clínica. Sócio-fundador da empresa 3F Clinical Trials e Inovação Canabinoides. Realiza pesquisa clínica com canabinoides desde 2017. Instagram: neypnascimento

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