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Como tratar as cicatrizes invisíveis da guerra?



14/03/2026


Veteranos de guerra carregam cicatrizes invisíveis. Psicodélicos como MDMA, psilocibina e ibogaína surgem como novas terapias para tratar o TEPT.

Como tratar as cicatrizes invisíveis da guerra?

Como tratar as cicatrizes invisíveis da guerra?

A guerra não termina quando o soldado deixa o campo de batalha. Para muitos veteranos (militares experientes), o conflito continua silenciosamente dentro da mente.

Nesse cenário, o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) tornou-se uma das feridas mais profundas deixadas pelos conflitos modernos. A condição afeta milhares de militares que retornam para casa com memórias intrusivas, hipervigilância constante, depressão e risco aumentado de suicídio.

Durante décadas, médicos basearam o tratamento principalmente em antidepressivos, estabilizadores de humor e psicoterapia tradicional. Embora essas abordagens ajudem muitos pacientes, uma parcela significativa de veteranos continua com sintomas refratários. Por isso, pesquisadores passaram a investigar novas estratégias terapêuticas.

É justamente nesse contexto que o interesse científico pelas substâncias e pela psicoterapia assistida por psicodélicos voltou a crescer.

O novo interesse científico pelos psicodélicos

Nos últimos anos, pesquisadores passaram a estudar compostos como a psilocibina, o MDMA e a ibogaína como possíveis ferramentas terapêuticas para o TEPT.

Diferentemente das abordagens farmacológicas tradicionais, que geralmente buscam reduzir sintomas, a chamada psicoterapia assistida por psicodélicos propõe algo diferente. Nesse modelo, o paciente revisita experiências traumáticas em um estado não ordinário (ampliado ou expandido) de consciência. Dessa forma, o processo pode facilitar a ressignificação da memória traumática.

Leia também: Microdoses de psilocibina: alternativa para saúde mental e dor

A expansão da consciência pode ser descrita como uma dissociação do ego ou como uma conexão com o todo. Em outras palavras, trata-se de uma porta aberta para o inconsciente. Ainda assim, essa experiência também é frequentemente considerada inefável, pois não pode ser plenamente explicada ou compreendida por meio das palavras.

MDMA e TEPT: resultados promissores

Entre essas substâncias, o MDMA (metilenodioximetanfetamina) tem recebido atenção especial em estudos clínicos voltados ao tratamento do TEPT.

Quando terapeutas utilizam o composto em ambiente terapêutico controlado, ele parece reduzir o medo e aumentar a sensação de segurança e confiança. Assim, o paciente consegue explorar memórias traumáticas sem ser dominado pelo pânico ou pela angústia.

Além disso, ensaios clínicos conduzidos nas últimas duas décadas demonstraram resultados promissores. Muitos estudos registraram taxas significativas de remissão dos sintomas.

Psilocibina e a reorganização das memórias

A psilocibina, substância presente em cogumelos da espécie Psilocybe cubensis, também vem sendo investigada por sua capacidade de promover estados de introspecção profunda e reorganização de padrões cognitivos rígidos.

Esses padrões frequentemente aparecem em pessoas que convivem com traumas persistentes. Por isso, pesquisadores observam que experiências psicodélicas, quando integradas a psicoterapia estruturada, podem favorecer mudanças duradouras na forma como o cérebro processa emoções e memórias.

Ibogaína: potencial terapêutico e riscos

A ibogaína é um alcaloide psicoativo extraído da planta africana Tabernanthe iboga. Tradicionalmente, comunidades religiosas do Gabão e de outros países da África Central utilizam essa planta em rituais espirituais.

Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a estudar a substância por seu potencial no tratamento de dependência química, especialmente de opioides, cocaína e outras substâncias. Esse interesse surgiu principalmente por causa de sua possível ação sobre múltiplos sistemas neuroquímicos, incluindo receptores serotoninérgicos, dopaminérgicos e glutamatérgicos.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) ainda não aprovou a ibogaína como medicamento. No entanto, a legislação não proíbe seu uso quando clínicas realizam o tratamento em contexto clínico ou terapêutico experimental. Por isso, algumas clínicas privadas utilizam a substância principalmente em tratamentos voltados à dependência química.

Apesar do interesse crescente, o nível de evidência científica ainda permanece limitado. Atualmente, existem poucos ensaios clínicos controlados. Portanto, especialistas ainda classificam o tratamento como experimental.

Além disso, médicos precisam realizar avaliação rigorosa e monitoramento adequado durante o tratamento, principalmente por causa dos potenciais riscos cardiovasculares e neurológicos associados à substância.

Mesmo assim, muitos relatos descrevem experiências introspectivas intensas durante o tratamento. Frequentemente, pacientes relatam revisitar memórias autobiográficas profundas.

Quando a ciência encontra a cultura

Essa realidade apareceu recentemente no documentário “No Mar e na Guerra”, disponível na plataforma Netflix.

O filme acompanha veteranos das forças especiais americanas que convivem com TEPT grave. Depois de esgotarem tratamentos convencionais, esses militares buscam terapias psicodélicas em uma clínica no México.

Ao longo da narrativa, o documentário mostra como esses homens — marcados por anos de combate e traumas psicológicos — relatam experiências transformadoras durante sessões com ibogaína e outras substâncias psicodélicas. Pesquisadores e profissionais de saúde acompanham todo o processo.

Mais do que apresentar tratamentos não convencionais, o documentário revela um dilema contemporâneo. Enquanto muitos veteranos continuam sofrendo sem resposta terapêutica adequada, algumas das abordagens mais promissoras ainda enfrentam barreiras regulatórias e estigma histórico.

O papel central da psicoterapia

É importante destacar que essas terapias não se resumem ao uso da substância em si.

Na prática, o elemento central do tratamento é o contexto terapêutico estruturado. Esse processo inclui preparação psicológica, acompanhamento durante a experiência (indução) e sessões de integração posteriores.

Sem esse suporte clínico adequado, o uso dessas substâncias pode trazer riscos importantes.

Um novo paradigma na psiquiatria

Atualmente, o chamado “renascimento psicodélico” na ciência moderna vem provocando uma mudança de paradigma na psiquiatria.

Instituições acadêmicas, centros de pesquisa e organizações dedicadas à saúde mental de veteranos passaram a analisar essas abordagens com mais seriedade. Durante décadas, a medicina manteve essas terapias à margem do debate científico.

Diante desse cenário, talvez a pergunta mais importante não seja se os psicodélicos podem ajudar. Na verdade, o debate central hoje gira em torno de como incorporá-los de forma ética, segura e baseada em evidências no cuidado com aqueles que carregam as cicatrizes invisíveis da guerra.

Por fim, se a medicina do futuro conseguir transformar essas experiências em tratamentos acessíveis e cientificamente validados, talvez seja possível oferecer a muitos veteranos algo que lhes foi negado por anos: a possibilidade real de reconciliação com o próprio passado.

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Lucas Lomba

Dr. Lucas Monteiro Lomba, Médico Especialista em Acupuntura com Especialização em Dor pela USP. Prescritor de Cannabis Medicinal e Palestrante. CRM-SP 154.510 | RQE 133743