• 16 de agosto de 2022

Como a maconha entrou na minha vida …

 Como a maconha entrou na minha vida …

Foto: Freepik

Tornei-me mãe aos 35 anos. Pensei que estava pronta para tal empreitada e que seria uma maternidade tranquila e feliz. Meu filho nasceu bem, mas em razão de uma negligência médica, ainda no berçário, teve um quadro grave de anóxia (falta de oxigênio) por uma pneumonia não diagnosticada. 

Depois de vários dias na UTI, Pedrinho veio para casa aparentemente sem sequelas. Aos três meses de idade teve a primeira crise epiléptica e só então descobrimos que havia uma lesão cerebral causada pela falta de oxigênio e em decorrência dela uma síndrome epiléptica grave, chamada Síndrome de West. 

A partir de então, meu filho não parou mais de convulsionar, chegando a ter cerca de 30 crises epilépticas todos os dias, mesmo tomando todas as combinações possíveis de anticonvulsivantes. 

Aos quatro anos de idade fazia uso de cinco anticonvulsivantes (tomava 16 comprimidos ao dia) e mesmo assim, tinha entre 30 e 40 crises diárias. Não andava, não falava, não interagia, não vivia… Foi então que, aos quatro anos de idade, meu filho tornou-se “maconheiro”. 

Como a maconha foi um divisor de águas

  Começamos a usar maconha para deter as crises e elas realmente cederam. Conseguimos retirar todos os medicamentos e só com a maconha meu filho passou a viver. Chegou a passar um ano inteiro sem nenhuma crise epiléptica e aos oito anos de idade começou a andar. 

Hoje meu filho está com 12 anos. Não tem mais a Síndrome de West, mas “apenas” um quadro de autismo e epilepsia focal, com uma média de três a quatro crises ao mês. Não faz uso de nenhuma medicação, apenas a maconha. 

Tem idade mental de um bebê de seis meses, mas realiza trocas afetivas, anda, brinca, sorri, se diverte, se alimenta e dorme bem. Enfim, temos qualidade de vida!

Ativismo canábico

  Essa situação colocou-me num lugar no qual jamais imaginei que estaria: o de ativista canábica.

Tornei-me ativista por perceber que não era apenas a saúde do meu filho, mas a vida de milhares de pessoas às quais a atual política de drogas no nosso país condena à morte todos os dias. 

  Hoje, toda a nossa família é usuária de cannabis com finalidade terapêutica. Temos amparo judicial para a manutenção do nosso cultivo doméstico. Acreditamos e experimentamos a eficácia da cannabis como ferramenta terapêutica. 

Mas não é só isso: hoje a nossa luta é para que esta planta seja devolvida à população, para que as pessoas possam cultivá-la em seus ambientes domésticos e lançar mão dessa medicina, que já foi popular e acessível a todos no nosso país. 

Força interior

  Tenho experimentado que essa é uma luta na qual ainda precisamos nadar contra a correnteza o tempo inteiro. Todavia, com meu filho eu aprendo todos os dias como apropriar-me dessa condição de “mãeconheira” de forma digna, inteira, plena, forte e feliz (assim como ele). 

Com meu filho descobri uma força interior que jamais imaginei que teria e aprendi a olhar a vida com os olhos sempre cheios de esperança. Aprendi a acolher as pessoas e suas necessidades, aprendi a compreender e a ter compaixão. 

Com meu filho me lanço todos os dias nesse ativismo, com a certeza de que, naquilo que me cabe, farei o meu melhor para que tenhamos não apenas acesso à terapêutica canábica, mas que esse acesso se dê por uma ampla mudança na política de drogas em nosso país.

Sheila Geriz

Mestre em Direito pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Sheila Geriz é paciente e mãe de paciente que utiliza a terapia canábica. A analista Judiciária do Tribunal de Justiça da Paraíba coordena a Associação em defesa do uso terapêutico da Cannabis - Liga Canábica, na Paraíba, e também é Coordenadora Geral da Federação das Associações de Cannabis Terapêutica - FACT.

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