Enquanto cresce o interesse por soluções para preservar a saúde mental no envelhecimento, cogumelos funcionais como o “juba de leão” entram no radar da ciência — e também do mercado. Mas o que, de fato, já sabemos?

Cogumelo Juba de Leão previne Alzheimer? Psiquiatra explica
Nos últimos anos, o cogumelo juba de leão (Hericium erinaceus) passou de ingrediente exótico a objeto de estudo em pesquisas sobre saúde cerebral. Associado à neuroplasticidade e à preservação cognitiva, ele tem ganhado espaço tanto na ciência quanto no mercado — ainda cercado por dúvidas, promessas e alguma confusão conceitual.
É nesse contexto que entra o psiquiatra Dr. Francisco Tancredi, que há décadas atua na interface entre saúde pública e prática clínica, e que, nos últimos anos, voltou sua atenção ao potencial terapêutico dos cogumelos. Com formação pela USP e passagem por instituições internacionais, ele acompanha de perto a evolução desse campo ainda emergente.
Fundador da Fungipharm e estudioso da fungicultura desde os anos 2000, Tancredi combina experiência clínica com investigação científica para analisar, com cautela, o que já se sabe — e o que ainda precisa ser comprovado — sobre os efeitos do juba de leão no cérebro.
O interesse de Tancredi pelos cogumelos começou fora do consultório.
“O meu interesse é relativamente recente. Começa lá pelo ano 2000, inicialmente por cogumelos comestíveis, muito mais pela curiosidade gastronômica mesmo.”
Com o tempo, esse interesse evoluiu para uma investigação mais aprofundada sobre os efeitos no organismo.
“A gente começou a estudar mais a fundo e, nesse caminho, encontrou que o Juba de Leão seria realmente uma possibilidade interessante, um caminho que poderia trazer benefício para as pessoas.”
Esse percurso culminou na criação da Fungipharm, com foco em desenvolver produtos baseados em critérios científicos — um desafio em um mercado ainda pouco padronizado.
Antes de falar sobre benefícios, é preciso desfazer uma confusão comum.
O termo “cogumelo” costuma ser usado de forma genérica, mas engloba categorias muito diferentes — dos comestíveis tradicionais aos psicodélicos, passando pelos chamados funcionais. E essa distinção não é apenas semântica: ela envolve composição química, efeito no organismo e até questões legais.
Segundo o psiquiatra Francisco Tancredi, o primeiro passo é separar os grupos corretamente.
“O psilocybe, por exemplo, é um cogumelo psicodélico, diferente dos funcionais. Ele tem uma outra proposta, uma outra atuação no organismo.”
Os cogumelos comestíveis — como champignon, shiitake e shimeji — fazem parte da alimentação cotidiana e têm valor nutricional relevante.
Eles fornecem fibras, vitaminas e minerais, mas não são, em geral, utilizados com finalidade terapêutica específica no cérebro.
Ou seja: são saudáveis, mas não atuam diretamente em mecanismos como neuroplasticidade ou fatores de crescimento neural.
Já os cogumelos funcionais ocupam um espaço intermediário entre alimento e intervenção terapêutica.
“Esses cogumelos ficaram conhecidos como funcionais justamente porque eles trazem algum tipo de benefício para sistemas do corpo, não estão ligados a efeito alucinógeno.”
Na prática, isso posiciona o juba de leão dentro de uma lógica cada vez mais relevante na medicina: intervir antes da perda, e não apenas depois dela.
Os cogumelos psicodélicos, como os do gênero Psilocybe, operam em uma lógica completamente diferente.
Seu principal composto ativo, a psilocibina, atua diretamente em receptores cerebrais ligados à percepção, humor e consciência.
“O psilocybe é um cogumelo psicodélico. Os funcionais não têm essa proposta, eles não têm efeito alucinógeno.”
Enquanto os funcionais buscam modular processos biológicos ao longo do tempo, os psicodélicos produzem efeitos agudos e, geralmente, dependem de contexto terapêutico controlado.
Na prática, misturar essas categorias pode gerar expectativas erradas, como esperar efeito cognitivo de um cogumelo culinário, acreditar que todo cogumelo altera a consciência ou que um cogumelo funcional causa alucinações.
Ao separar claramente os grupos, fica mais fácil entender o papel de cada um — e, principalmente, onde estão as evidências mais promissoras.

Dr. Francisco Tancredi em entrevista para a Cannalize
O principal interesse científico no juba de leão está na sua relação com a neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de se adaptar e se regenerar.
“Hoje a gente sabe que o cérebro também faz células nervosas novas, ele não é um órgão estático. Isso é o que a gente chama de neuroplasticidade.”
Essa ação está associada a compostos bioativos presentes no cogumelo.
“As erinacinas e hericenonas são substâncias que estimulam o nosso organismo a produzir os fatores de crescimento nervoso.”
Esses fatores são essenciais para a manutenção e funcionamento dos neurônios ao longo da vida.
Apesar do potencial, Tancredi faz questão de estabelecer limites claros.
“É difícil você dizer ‘tome isso e você vai se curar’. Eu não estou propondo que você cure o Alzheimer, por exemplo. O que a gente observa é que você consegue retardar o processo.”
Na prática, isso significa atuar antes que o dano esteja instalado.
“Você pode retardar o teu declínio cognitivo. Você pode fazer com que essa pessoa siga mais anos com qualidade de vida do ponto de vista cognitivo.”
Esse raciocínio reforça um ponto central: o cérebro ainda é negligenciado quando se fala em prevenção.
“As pessoas esquecem de cuidar do cérebro. E, na verdade, é a parte mais importante que você deveria cuidar.”
Duas dúvidas aparecem com frequência. A primeira é sobre o tempo de ação.
Diferente de substâncias de efeito imediato, o juba de leão atua de forma gradual, acompanhando processos biológicos como regeneração neural e modulação de fatores de crescimento.
A segunda envolve possíveis efeitos psicoativos — o que, segundo o especialista, é um equívoco comum.
“O psilocybe é um cogumelo psicodélico, mas o juba de leão, não. Os funcionais não têm essa proposta, eles não têm efeito alucinógeno.”
Com a popularização dos cogumelos funcionais, cresce também a oferta de produtos — nem sempre com qualidade ou eficácia garantidas.
Tancredi chama atenção para irregularidades no mercado. Mas o problema não é apenas regulatório, é também técnico.
Segundo ele, a forma como o cogumelo é apresentado faz diferença direta no efeito clínico. Produtos à base de cogumelo simplesmente moído, como cápsulas comuns, podem não entregar a quantidade necessária dos compostos ativos.
Isso acontece porque boa parte das substâncias de interesse, como as erinacinas e hericenonas, não é facilmente absorvida pelo organismo quando o cogumelo é consumido in natura ou em pó.
“As paredes celulares dos cogumelos são feitas de quitina… o sistema gastrointestinal humano não é eficiente em romper essa barreira, o que significa que boa parte dos compostos bioativos passa pelo trato digestivo sem ser absorvida.”
Além disso, há uma questão de concentração.
“Para alcançar doses terapêuticas dos compostos específicos descritos em estudos clínicos, extratos concentrados e padronizados são necessários.”
Na prática, isso significa que formas menos concentradas exigiriam volumes muito maiores de consumo para atingir o mesmo efeito — o que nem sempre é viável.
É justamente nesse ponto que entram os extratos concentrados, como os desenvolvidos pela Fungipharm, que buscam entregar os compostos ativos em doses mais precisas e biodisponíveis, geralmente em poucas gotas.
O cenário regulatório dos cogumelos funcionais ainda está em construção no país — especialmente quando falamos de extratos com finalidade terapêutica.
Embora muitos desses produtos sejam classificados como fungiterápicos, sua utilização não é totalmente livre de critérios.
Atualmente, os produtos à base de cogumelos desenvolvidos pela Fungipharm, por exemplo, estão disponíveis no Brasil por meio de plataformas especializadas como a Cannect. Ainda assim, o acesso ocorre mediante prescrição médica, o que reforça o caráter clínico da utilização.
O interesse por cogumelos funcionais cresce junto com a busca por estratégias de envelhecimento saudável. Ainda assim, a expectativa precisa ser bem calibrada.
Tancredi reforça que o uso do juba de leão deve estar inserido em um contexto mais amplo de cuidado com a saúde mental — e não como solução isolada.
“Não adianta você tomar e achar que está tudo resolvido. Isso precisa estar associado a hábitos saudáveis.”
Na prática, isso inclui tanto o cuidado com o corpo quanto com a mente.
“Atividade física é importante, mas você também precisa exercitar o cérebro. Leitura, raciocínio lógico, coisas como sudoku… tudo isso faz diferença.”
E ele faz um alerta direto sobre um comportamento comum.
“As pessoas se preocupam muito com o corpo, com estética, academia… mas esquecem de cuidar da mente, que é o mais importante.”
Nesse cenário, o juba de leão aparece menos como uma promessa isolada e mais como parte de uma mudança de mentalidade: tratar o cérebro como prioridade ao longo da vida.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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