• 25 de junho de 2022

Cloroquina, não! Canabis? Talvez. 

 Cloroquina, não! Canabis? Talvez. 

A pandemia causada pelo novo coronavírus Sars Cov 2, que se iniciou em 2019 e foi declarada como tal em 11 de março de 2020 pela OMS, ainda está longe de terminar, infelizmente.

 Em nenhum momento da história experienciamos qualquer semelhança ao que estamos vivendo atualmente. Talvez outras epidemias pudessem ter o potencial de transmissão e letalidade como  esta, mas as condições atuais de transporte  e globalização se mostraram ideais para nos mostrar que o mundo de fato, é uma aldeia. 

Obviamente, regiões e países com menos recursos econômicos, maior pobreza e com gestões negacionistas são as que mais estão sofrendo sanitária e economicamente. 

A gestão brasileira tem sido internacionalmente reconhecida como a pior do mundo na pandemia e desafortunadamente, somos hoje vistos como um pária mundial e uma ameaça sanitária global. 

Não bastasse a gestão inoperante, termos tido quatro ministros da saúde em um período de 1 ano, ainda tivemos um ministro da saúde convocado para esconder mortos e que assumiu que não sabia o que era o SUS antes de chefiar o Ministério da Saúde

É como se você, caro leitor, fosse colocado para chefiar uma mesa de uma operação cardíaca sem saber o que é um bisturi, ou para assumir o comando de um avião sob uma turbulência sem saber o que é um manche.

Mas o desastre brasileiro nesta pandemia não se limita ao negacionismo da doença e sua gravidade, somos também o país dos cloroquiners, entusiastas do medicamento antimalárico como tratamento da Covid-19. 

Já seria um problema a crendice popular de que este medicamento, sem nenhuma comprovação científica, pudesse tratar essa doença. No entanto, aqui gestores governamentais atuam como se médicos e cientistas fossem, orientando e fazendo propaganda de medicamentos ineficazes para cura e prevenção desta doença. 

Para completar, aqui também médicos atuam como se charlatães fossem, prescrevendo e testemunhando efeitos terapêuticos da cloroquina na Covid-19 sem nenhum embasamento técnico-científico. A mim, como professor de um curso de medicina (mas se aplica a todas as carreiras), escancara o quanto temos que nos preocupar em ensinar metodologia, pensamento científico e crítico aos nossos estudantes, ao invés de apenas ensinarmos a replicação de protocolos e procedimentos. 

Por outro lado, vários artigos de opinião e alguns experimentais, têm sugerido que derivados da Cannabis poderiam ser úteis no tratamento desta infecção. 

Seria mesmo a Cannabis e seus principais derivados, como o THC ou o CBD, possíveis ferramentas terapêuticas para redução de mortes nesta pandemia? 

Sabe-se que a gravidade acometida pelo Sars Cov-2 tem uma relação íntima com o comprometimento do sistema respiratório inferior, em grande parte induzida por um fenômeno chamado tempestade de citocinas

Citocinas são pequenas proteínas produzidas pelo nosso sistema imunológico com o objetivo de resolver infecções e lesões.Porém, quando há um excesso de citocinas podemos ter problemas, como uma inflamação descontrolada, exatamente o que acontece na Covid-19. 

Uma super inflamação fora de controle acomete os pulmões do infectado, podendo levar a uma completa perda de função pulmonar,o que induz a fibrose pulmonar e SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), sendo esta a principal causa de óbito pelo novo coronavírus. 

Os principais constituintes da Cannabis, como o THC e CBD, que são chamados de fitocanabinoides, possuem eficazes efeitos anti-inflamatórios e anti-citocinas já muito bem reconhecidos por centenas de estudos. Assim, a hipótese é de que estas substâncias possam atuar reduzindo a tempestade de citocinas ou a super inflamação, auxiliando na resolução da enfermidade e reduzindo a mortalidade. Outros testes ainda avaliam se fitocanabinoides poderiam atuar diretamente sobre o vírus Sars Cov 2. 

Neste momento, alguns artigos experimentais que utilizam células ou animais têm demonstrado que os fitocanabinoides podem ser eficazes na redução de citocinas inflamatórias ou mesmo poderiam reduzir a efetividade ou replicação do vírus. Um estudo demonstrou que o CBD (Canabidiol) e seu metabólito, o 7-OH-CBD, bloquearam a replicação de Sars Cov-2 em células epiteliais do pulmão. 

Além disso, o CBD induziu a formação de uma proteína chamada interferon, que potencializa a defesa dos organismos contra infecções virais. Outro artigo que utilizou um modelo de inflamação em pele, demonstrou que um extrato de Cannabis rico em CBD foi capaz de reduzir a fibrose induzida por citocinas, além de reduzir a formação do fator CCL2, que é um importante marcador de fibrose. 

Estes canabinoides reduziram também a tempestade de citocinas induzidas pelos pesquisadores.  

Em um trabalho de  Wang e colegas, há evidências de que um extrato de cannabis rico em CBD pode alterar a expressão da proteína receptora ACE2. Sabemos que a proteína ACE2, localizada na membrana celular, é utilizada como porta de entrada para o vírus infectar o paciente. 

Neste caso, a molécula derivada da Cannabis poderia reduzir ou dificultar a entrada do novo coronavírus nas células, apresentando um efeito específico para impedir a infecção. 

Obviamente, é preciso todo CUIDADO, seriedade e ética na divulgação destes dados, para que não sejamos levianos e sensacionalistas como os divulgadores de estudos prévios de substâncias como cloroquina, ivermectina e outras. 

Como dizia o filósofo e jogador, Dadá Maravilha, nós conhecemos a problemática, mas a solucionática ainda não foi desenvolvida. Estudos em humanos com centenas ou milhares de pacientes são necessários para gareantir a segurança e a eficácia destas drogas sobre a Covid-19. 

A imensa maioria dos tratamentos potenciais que são muito bons em modelos de células ou animais fracassam quando testados em pacientes, como cloroquina ou ivermectina fracassaram

Isso pode perfeitamente acontecer com os canabinoides, e somente após ensaios clínicos aleatórios e com grupo placebo demonstrarem que algum canabinoide seja efetivo contra a Covid-19, que médicos e gestores deveriam endossar seu uso para este caso. Aguardamos. Enquanto isso, o melhor procedimento para não necessitar nenhum tratamento sequer, chama-se vacina.

Francisney Nascimento

Francisney P Nascimento - Farmacêutico e Mestre em Farmacologia (UFSC). Doutor em Farmacologia (UFSC/Dalhousie University). Pós-doutorado em Neurofarmacologia (McGill University). Professor de Farmacologia Clínica e de Canabinologia Médica nos cursos de Medicina e Mestrado em Biociências na UNILA (Foz do Iguaçu). Coordenador do Lab de Neurofarmacologia Clínica. Sócio-fundador da empresa 3F Clinical Trials e Inovação Canabinoides. Realiza pesquisa clínica com canabinoides desde 2017. Instagram: neypnascimento

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