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Cetamina: da anestesia à nova fronteira da psiquiatria



07/02/2026


Da anestesia ao tratamento da depressão refratária, a cetamina levanta debates sobre eficácia, riscos e regulação na saúde mental.

Cetamina: da anestesia à nova fronteira da psiquiatria

Cetamina: da anestesia à nova fronteira da psiquiatria

A cetamina atravessou décadas ocupando lugares muito distintos na medicina, na ciência e no debate público. Desenvolvida como anestésico, hoje ela reaparece no centro das discussões sobre depressão refratária, dor crônica e os limites entre inovação terapêutica e uso controlado de substâncias com potencial psicodélico.

Esse percurso revela não apenas a versatilidade da substância, mas também as tensões que surgem quando a ciência avança mais rápido do que os consensos sociais e regulatórios.

Aspectos históricos

O químico Calvin Stevens sintetizou a cetamina em 1962. Poucos anos depois, a medicina passou a utilizá-la como anestésico dissociativo. Sua principal vantagem estava na segurança cardiovascular e respiratória, o que ampliou seu uso em cirurgias, emergências e contextos militares, inclusive durante a Guerra do Vietnã.

Nas décadas de 1980 e 1990, o uso recreativo ganhou visibilidade e contribuiu para o estigma em torno da substância. Ao mesmo tempo, pesquisadores começaram a observar um efeito inesperado: a melhora rápida de sintomas depressivos. Esse achado destoava completamente do padrão dos antidepressivos clássicos.

Mecanismo de ação

A cetamina atua de forma diferente dos antidepressivos tradicionais. Enquanto estes se concentram nas monoaminas, como serotonina e noradrenalina, a cetamina age principalmente no sistema glutamatérgico.

Ela bloqueia os receptores NMDA (N-metil-D-aspartato), o que provoca um aumento compensatório da liberação de glutamato e a ativação dos receptores AMPA. Esse processo desencadeia uma cascata neurobiológica. Entre os efeitos estão o aumento da plasticidade sináptica, a maior expressão do BDNF e a formação de novas conexões neurais.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que a cetamina pode reduzir sintomas depressivos em poucas horas ou dias. Em comparação, os antidepressivos convencionais costumam levar semanas para produzir efeito clínico relevante.

Depressão refratária: principal indicação contemporânea

Atualmente, a psiquiatria utiliza a cetamina sobretudo no tratamento da depressão refratária. Esse diagnóstico se aplica a pacientes que não respondem adequadamente a pelo menos dois antidepressivos, usados em doses e períodos corretos.

Ensaios clínicos indicam que doses subanestésicas de cetamina, administradas por via intravenosa ou intranasal e sob supervisão médica, reduzem sintomas depressivos graves de forma rápida. Em alguns casos, há diminuição significativa da ideação suicida.

Os efeitos, no entanto, tendem a ser transitórios. Por isso, os protocolos exigem acompanhamento rigoroso, sessões repetidas e avaliação contínua de riscos e benefícios.

Vale destacar que a esketamina, um isômero da cetamina comercializado como Spravato, já possui aprovação regulatória para depressão resistente em diversos países, incluindo o Brasil. Esse avanço reforça o interesse científico e clínico nessa classe terapêutica.

Uso da cetamina na dor crônica

Na dor crônica, a cetamina aparece como adjuvante terapêutico em casos específicos. Isso inclui síndromes de dor neuropática, dor oncológica e condições como a fibromialgia.

Seu efeito analgésico decorre da modulação do glutamato e da redução da sensibilização central, um dos principais mecanismos envolvidos na cronificação da dor. Em pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais, a substância pode representar uma alternativa relevante.

Ainda assim, a literatura científica não estabelece consensos amplos sobre protocolos ideais, duração do tratamento ou critérios precisos de indicação. Essa lacuna reforça a necessidade de cautela e pesquisa contínua.

Legislação e status regulatório no Brasil

No Brasil, a cetamina integra a lista de substâncias de uso controlado da Anvisa. A legislação permite seu uso exclusivamente em ambiente médico, mediante prescrição e adoção de protocolos adequados.

A Anvisa aprovou a esketamina intranasal para o tratamento da depressão resistente, com exigência de administração supervisionada em clínica. A agência impôs essa regra devido a possíveis efeitos adversos, como dissociação, aumento transitório da pressão arterial e alterações perceptivas.

O uso off-label da cetamina para depressão e dor crônica é legal. No entanto, ele exige respeito às normas éticas, regulatórias e à responsabilidade médica.

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Inovação, risco e responsabilidade

Hoje, a cetamina ocupa um lugar singular na medicina contemporânea. Ela representa uma das maiores inovações das últimas décadas no tratamento da depressão, mas também impõe limites claros.

Seu potencial terapêutico é real. Ainda assim, o uso inadequado pode gerar riscos relevantes, sobretudo fora de ambientes clínicos estruturados. Por isso, a discussão sobre a cetamina ultrapassa a farmacologia.

Em um contexto de crescente interesse por terapias inovadoras e por substâncias historicamente marginalizadas, a cetamina nos obriga a refletir. Ciência, política de drogas e saúde pública precisam avançar juntas — com evidência, responsabilidade e transparência.

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Lucas Lomba

Dr. Lucas Monteiro Lomba, Médico Especialista em Acupuntura com Especialização em Dor pela USP. Prescritor de Cannabis Medicinal e Palestrante. CRM-SP 154.510 | RQE 133743