Da anestesia ao tratamento da depressão refratária, a cetamina levanta debates sobre eficácia, riscos e regulação na saúde mental.

Cetamina: da anestesia à nova fronteira da psiquiatria
A cetamina atravessou décadas ocupando lugares muito distintos na medicina, na ciência e no debate público. Desenvolvida como anestésico, hoje ela reaparece no centro das discussões sobre depressão refratária, dor crônica e os limites entre inovação terapêutica e uso controlado de substâncias com potencial psicodélico.
Esse percurso revela não apenas a versatilidade da substância, mas também as tensões que surgem quando a ciência avança mais rápido do que os consensos sociais e regulatórios.
O químico Calvin Stevens sintetizou a cetamina em 1962. Poucos anos depois, a medicina passou a utilizá-la como anestésico dissociativo. Sua principal vantagem estava na segurança cardiovascular e respiratória, o que ampliou seu uso em cirurgias, emergências e contextos militares, inclusive durante a Guerra do Vietnã.
Nas décadas de 1980 e 1990, o uso recreativo ganhou visibilidade e contribuiu para o estigma em torno da substância. Ao mesmo tempo, pesquisadores começaram a observar um efeito inesperado: a melhora rápida de sintomas depressivos. Esse achado destoava completamente do padrão dos antidepressivos clássicos.
A cetamina atua de forma diferente dos antidepressivos tradicionais. Enquanto estes se concentram nas monoaminas, como serotonina e noradrenalina, a cetamina age principalmente no sistema glutamatérgico.
Ela bloqueia os receptores NMDA (N-metil-D-aspartato), o que provoca um aumento compensatório da liberação de glutamato e a ativação dos receptores AMPA. Esse processo desencadeia uma cascata neurobiológica. Entre os efeitos estão o aumento da plasticidade sináptica, a maior expressão do BDNF e a formação de novas conexões neurais.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que a cetamina pode reduzir sintomas depressivos em poucas horas ou dias. Em comparação, os antidepressivos convencionais costumam levar semanas para produzir efeito clínico relevante.
Atualmente, a psiquiatria utiliza a cetamina sobretudo no tratamento da depressão refratária. Esse diagnóstico se aplica a pacientes que não respondem adequadamente a pelo menos dois antidepressivos, usados em doses e períodos corretos.
Ensaios clínicos indicam que doses subanestésicas de cetamina, administradas por via intravenosa ou intranasal e sob supervisão médica, reduzem sintomas depressivos graves de forma rápida. Em alguns casos, há diminuição significativa da ideação suicida.
Os efeitos, no entanto, tendem a ser transitórios. Por isso, os protocolos exigem acompanhamento rigoroso, sessões repetidas e avaliação contínua de riscos e benefícios.
Vale destacar que a esketamina, um isômero da cetamina comercializado como Spravato, já possui aprovação regulatória para depressão resistente em diversos países, incluindo o Brasil. Esse avanço reforça o interesse científico e clínico nessa classe terapêutica.
Na dor crônica, a cetamina aparece como adjuvante terapêutico em casos específicos. Isso inclui síndromes de dor neuropática, dor oncológica e condições como a fibromialgia.
Seu efeito analgésico decorre da modulação do glutamato e da redução da sensibilização central, um dos principais mecanismos envolvidos na cronificação da dor. Em pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais, a substância pode representar uma alternativa relevante.
Ainda assim, a literatura científica não estabelece consensos amplos sobre protocolos ideais, duração do tratamento ou critérios precisos de indicação. Essa lacuna reforça a necessidade de cautela e pesquisa contínua.
No Brasil, a cetamina integra a lista de substâncias de uso controlado da Anvisa. A legislação permite seu uso exclusivamente em ambiente médico, mediante prescrição e adoção de protocolos adequados.
A Anvisa aprovou a esketamina intranasal para o tratamento da depressão resistente, com exigência de administração supervisionada em clínica. A agência impôs essa regra devido a possíveis efeitos adversos, como dissociação, aumento transitório da pressão arterial e alterações perceptivas.
O uso off-label da cetamina para depressão e dor crônica é legal. No entanto, ele exige respeito às normas éticas, regulatórias e à responsabilidade médica.
Leia também: Microdoses de psilocibina: alternativa para saúde mental e dor
Hoje, a cetamina ocupa um lugar singular na medicina contemporânea. Ela representa uma das maiores inovações das últimas décadas no tratamento da depressão, mas também impõe limites claros.
Seu potencial terapêutico é real. Ainda assim, o uso inadequado pode gerar riscos relevantes, sobretudo fora de ambientes clínicos estruturados. Por isso, a discussão sobre a cetamina ultrapassa a farmacologia.
Em um contexto de crescente interesse por terapias inovadoras e por substâncias historicamente marginalizadas, a cetamina nos obriga a refletir. Ciência, política de drogas e saúde pública precisam avançar juntas — com evidência, responsabilidade e transparência.
Lucas Lomba
Dr. Lucas Monteiro Lomba, Médico Especialista em Acupuntura com Especialização em Dor pela USP. Prescritor de Cannabis Medicinal e Palestrante. CRM-SP 154.510 | RQE 133743
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