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Cannabis medicinal e o intestino: promessas e alertas



19/07/2025


Cannabis medicinal e o intestino promessas e alertas

Cannabis medicinal e o intestino promessas e alertas

Nos últimos anos, a cannabis medicinal tem ganhado espaço na gastroenterologia, especialmente quando o assunto são doenças inflamatórias do intestino (as famosas DIIs).

Como por exemplo, a gastroparesia, que possui sintomas como náuseas e vômitos. Mas, apesar dos avanços, o uso dessa planta ainda gera dúvidas. Tanto sobre os benefícios quanto sobre os riscos.

O que dizem os estudos sobre cannabis e intestino?

Um estudo realizado pelo Imperial College London acompanhou 116 pacientes com DII ao longo de 18 meses. Quase 26% deles relataram melhorias significativas nos sintomas.

Além disso, muitos notaram melhoras no sono, menos ansiedade e uma sensação maior de bem-estar. Os melhores resultados apareceram entre os pacientes com quadros graves de ansiedade, que usaram doses mais altas de THC (o composto psicoativo da planta).

Já uma pesquisa mais recente, publicada em dezembro de 2024 na revista Pharmaceutical, mostrou algo ainda mais curioso: a cannabis pode ajudar a equilibrar a microbiota intestinal (aquele conjunto de micro-organismos que vive no nosso intestino) e melhorar a barreira intestinal. O que pode ser ótimo para o sistema imunológico e metabólico.

Mas é preciso cautela

Apesar das boas notícias, é importante lembrar que o uso da cannabis não está livre de riscos. Um dos efeitos adversos mais conhecidos é a chamada Síndrome de Hiperêmese Canabinoide (SHC).

Pode parecer estranho, mas essa condição acontece justamente com quem usa cannabis com frequência e por muito tempo. Mesmo que seja para tratar náuseas. A pessoa passa a ter crises repetidas de vômitos, náuseas fortes e dor abdominal.

Essa síndrome geralmente evolui em três fases:

  1. Fase inicial (prodrômica): o paciente sente náuseas, desconforto gástrico e começa a evitar a alimentação.
  2. Fase hiperemética: os sintomas se intensificam, com vômitos constantes, dor, perda de peso e até desidratação. Muitos relatam alívio temporário com banhos quentes — sim, banhos!
  3. Fase de recuperação: os sintomas desaparecem quando a pessoa para de usar cannabis. Mas, se ela voltar a usar, a síndrome pode voltar também.

O que causa essa síndrome?

Ainda não se sabe ao certo. Entre as hipóteses, estão:

  • Uma disfunção nos receptores canabinoides do corpo;
  • Acúmulo de substâncias do THC no organismo;
  • Alterações hormonais e no sistema nervoso;
  • E até a atuação de receptores que respondem a estímulos de calor, o que explicaria o alívio com banhos quentes.

Como diagnosticar e tratar?

O diagnóstico da SHC é feito com base nos sintomas e no histórico de uso frequente de cannabis. É importante descartar outras causas possíveis para os vômitos cíclicos.

Já o tratamento é direto: parar totalmente com o uso da cannabis. Os banhos quentes ajudam a aliviar temporariamente, mas não resolvem o problema.

Apesar de ainda pouco conhecida, a SHC precisa entrar no radar dos profissionais de saúde, principalmente agora que o uso terapêutico da cannabis está mais comum.

Em resumo,

A cannabis medicinal tem, sim, potencial para ajudar em casos de doenças intestinais e outros problemas de saúde.

Mas seu uso precisa ser responsável, com acompanhamento médico e produtos confiáveis. Mais pesquisas são necessárias, e a regulamentação adequada faz toda a diferença para garantir que os pacientes se beneficiem sem correr riscos desnecessários.

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Dr. Mario Grieco

Médico, especialista em medicina interna e medicina do trabalho, também é pesquisador de Cannabis Medicinal e Fellowship em Internal Medicine nos EUA, onde viveu por 20 anos, obteve a certificação ECFMG. Além do trabalho como pesquisador, é colaborador do ambulatório do hospital das clínicas na faculdade de medicina da USP e professor do curso de pós-graduação lato sensu em Cannabis Medicinal na Ânima-Inspirali. Foi presidente de seis empresas e atualmente é diretor da clínica Cannabis Care. Considerado um dos 20 líderes mais influentes da América Latina no campo de longevidade, recebeu vários prêmios nos Brasil e nos EUA e publicou seis livros, entre eles "Cannabis Medicinal Baseado em Fatos" e "Cannabis medicinal: fatos ou mitos?"