• 17 de abril de 2021

A diferença entre canabis medicinal e a maconha do maconheiro

 A diferença entre canabis medicinal e a maconha do maconheiro

Crédito: Getty Images/iStockphoto

Atualmente, na mídia, no meio acadêmico e no meio ativista se usa muito a expressão Canabis medicinal. Afinal, existe Canabis medicinal e canabis não-medicinal? E a maconha que o “maconheiro” fuma não é medicinal? Maconha fumada é droga e canabis tomada é remédio? Maconha faz mal e canabis faz bem?

Primeiramente, sobre as terminologias “Canabis” e “Maconha” deve-se diferenciar o nome popular do nome científico. Toda planta possui seu nome popular que muda de região para região.

A erva cidreira, por exemplo, também é chamada de capim cidreira, capim-santo, capim-cheiroso e de outros nomes. Mas seu nome científico é Melissa officinalis, que é único ao redor do mundo.

Da mesma forma, a maconha também é chamada de banza, ganja, diamba. Em espanhol a chamam de marijuana ou marihuana. Em inglês de hemp ou weed, em italiano de canapa e em sueco de hampa, e por milhares de outros nomes em todos os rincões do mundo.

Seu nome científico é Cannabis, que remete ao gênero da planta. A Cannabis possui 3 espécies: sativa, indica e ruderalis. A mais conhecida e utilizada é a Cannabis sativa.

No entanto, hoje tanto no cultivo legal ou ilegal há na verdade muitos cruzamentos entre as espécies e centenas de formas híbridas. Assim, é muito comum chamarmos apenas de Cannabis, ou no Brasil, de Canabis, e em seguida descrever a sua cepa ou linhagem para especificar em detalhes a planta.

Logo, nossa primeira conclusão deve ser que canabis e maconha são a mesma coisa. Ou melhor, as mesmas coisas, porque de fato há muito tempo não existe maconha, mas sim maconhas, e atualmente existem milhares de linhagens de Canabis ou de Maconhas.

Na verdade, em virtude do preconceito e do estigma que a palavra maconha carrega devido à sua proibição e sua associação ao crime e à “vadiagem”, a academia, pacientes e indústria tem utilizado o termo Canabis para diferenciar e dar um aspecto científico no discurso, mesmo que no fundo, seja a mesma coisa.

As canabis também podem se diferenciar pelas concentrações dos seus canabinoides. Há cepas que produzem maior quantidade de THC enquanto outras produzem muito mais CBD, ou ainda as que produzem ambos em quantidades semelhantes.

Maconhas com baixo teor de THC e alto teor de CBD podem ser chamadas de cânhamo, normalmente utilizadas para fins medicinais ou industriais.

Outro conceito que se costuma aplicar sobre a maconha é sobre o uso medicinal e o uso recreativo, que hoje já se prefere chamar de uso adulto. Podemos dizer que o uso medicinal é um uso sob prescrição médica e o uso adulto é o uso sem prescrição, para fins de relaxamento, recreação, culinária, ritualístico, ou mesmo medicinal ou ainda um uso com outros objetivos.

Muita gente usa maconha, principalmente pela via fumada. Mas não apenas, sem prescrição médica para relaxar (relaxante), para se tranquilizar (ansiolítico), para suportar estresse (antidepressivo), para dormir melhor (hipnótico), para aumenta o apetite (orexígeno).

Ou seja, vejam que todos estes usos também tem por objetivo um efeito terapêutico, apesar de esta canabis ter sido comprada numa “boca de fumo” ou plantada em casa, sendo ela legal ou ilegal.

Lembrem-se que quando usamos em casa erva-cidreira, boldo ou guaco, sem receita médica, estamos fazendo um uso medicinal destas plantas, o mesmo ocorre com a maconha quando não tem prescrição médica.

Assim, quando um indivíduo compra sua canabis em um local que não seja uma farmácia e sem o uso de receita, não quer dizer que seu uso também não possa ser considerado medicinal.

Também é interessante destacar e definir o que são vias de administração de uma substância. Independente se a canabis é ingerida pela via oral (cápsulas ou gotas), via tópica (sobre a pele) ou é fumada (absorção pulmonar), de todas estas formas ela pode causar efeitos farmacológicos, sejam terapêuticos, tóxicos ou apenas inebriantes.

A principal diferença da canabis por via oral ou fumada é o tempo de ação. Quando fumada, uma substância sofre absorção pulmonar e pode atingir o cérebro em poucos segundos e logo começa a causar efeitos.

Quando ingerimos uma cápsula ou gotas de um medicamento ele é absorvido em sua maior parte pelo intestino, em seguida atingirá nossa circulação sistêmica e em seguida nosso cérebro ou outros órgãos, processo que leva pelo menos 20 a 30 minutos para se iniciar.

Portanto, independente da via de administração, a canabis e outros medicamentos podem ser utilizados de acordo com a necessidade.

Há na rede vídeos de pacientes de Parkinson em crises motoras que fazem uso de maconha fumada para conseguir um efeito super rápido e reduzir seus sintomas, algo que com canabis pela via oral seria muito pouco efetivo.

O mesmo se aplica para pacientes com dor crônica, que em muitos casos apenas conseguem reduzir crises de dores quando utilizam a maconha na forma fumada.

Entretanto, o fumar tem suas desvantagens, em virtude da temperatura que se atinge para a queima da erva. Isso causa combustão e formação de toxinas. Desta forma, o uso de vaporizadores que permitem o uso de canabis pela via inalatória parecem ser uma alternativa vantajosa neste caso, porém, ainda precisamos mais estudos para avaliar estas ferramentas e seus riscos.

Algo muito importante que se deve levar em consideração quando falamos em canabis ou maconha, ou uso medicinal ou não, é a qualidade do produto. Quando produtos são produzidos de forma clandestina não há controle de qualidade mínimo e nem fiscalização, o que torna todo produto sem procedência definida um problema em potencial.

Essa é uma consequência da proibição das drogas ou da “Guerra às Drogas”, que merece discussão em outra coluna. Assim, a canabis medicinal e a maconha do maconheiro podem ser exatamente a mesma coisa, ou não, simples e contraditório assim.

 

 

 

 

 

 

Francisney Nascimento

Francisney Nascimento

Francisney P Nascimento - Farmacêutico e Mestre em Farmacologia (UFSC). Doutor em Farmacologia (UFSC/Dalhousie University). Pós-doutorado em Neurofarmacologia (McGill University). Professor de Farmacologia Clínica e de Canabinologia Médica nos cursos de Medicina e Mestrado em Biociências na UNILA (Foz do Iguaçu). Coordenador do Lab de Neurofarmacologia Clínica. Realiza pesquisa clínica com canabinoides desde 2017. Instagram: neypnascimento

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