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A natureza poderia ser divina



01/08/2026


Ao refletir sobre psilocibina, cogumelos, desinformação e a importância de unir natureza, ciência e responsabilidade.

a natureza poderia ser divina

a natureza poderia ser divina

Nas últimas semanas, acompanhei diferentes notícias envolvendo cogumelos e psilocibina. À primeira vista, os episódios pareciam completamente independentes.

Em alguns casos, pessoas consumiram substâncias sem orientação. Em outros, surgiram produtos adulterados e comercializações irregulares. Também houve internações, investigações e apreensões.

Quanto mais eu observava esses acontecimentos, porém, mais percebia que o verdadeiro ponto em comum não era o cogumelo.

Era a falta de informação.

Talvez seja justamente por isso que escolhi este título: a natureza poderia ser divina.

Mas, para revelar todo o seu potencial, ela precisa caminhar ao lado do conhecimento.

Entre a curiosidade e a desinformação

Vivemos um momento curioso. Nunca se pesquisou tanto sobre compostos naturais. Universidades, centros de pesquisa e hospitais dedicam anos ao estudo de substâncias que, durante muito tempo, permaneceram cercadas por preconceitos ou simplesmente foram ignoradas.

Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil encontrar informações superficiais, interpretações equivocadas e decisões tomadas sem preparo.

Por isso, é justamente nesse encontro entre curiosidade e desinformação que mora o perigo.

Existe uma ideia bastante comum de que tudo o que é natural também é seguro. No entanto, não é assim.

Por outro lado, há quem rejeite qualquer substância que ainda desperte controvérsia antes mesmo de tentar compreender o que a ciência investiga sobre ela.

Nenhum dos extremos ajuda.

A natureza é complexa. Sempre foi.

Ao longo da história, a medicina encontrou em plantas, fungos e microrganismos a origem ou a inspiração para inúmeras descobertas. Ainda assim, conhecimento científico não nasce apenas da observação. Ele exige pesquisa, análise, validação e tempo.

Com os cogumelos e a psilocibina, portanto, não deveria ser diferente.

A falta de informação não tem diploma

O que mais me preocupa não é apenas quando alguém decide experimentar uma substância sem qualquer orientação.

Também me preocupa quando profissionais repetem informações ultrapassadas sem acompanhar o avanço das pesquisas. Da mesma forma, vejo risco quando pacientes acreditam em qualquer conteúdo encontrado na internet apenas porque ele confirma aquilo que gostariam de ouvir.

Durante um atendimento, por exemplo, ouvi uma frase que nunca esqueci.

Uma paciente contou que relatou ao médico o uso de psilocibina como parte de seu acompanhamento terapêutico. A resposta veio imediatamente:

“Você também se corta?”

Naquele momento, a pergunta dizia muito mais sobre o desconhecimento em torno do assunto do que sobre a paciente.

Desde então, uma frase continua comigo:

A falta de informação não tem diploma.

Ela pode aparecer no paciente que acredita que “natural” significa “livre de riscos”.

Também pode estar no profissional que nunca buscou conhecer as evidências mais recentes.

Em outros casos, surge nas famílias que sentem medo justamente porque desconhecem o tema.

Além disso, aparece nas discussões públicas quando histórias completamente diferentes entram na mesma narrativa, sem contexto ou distinção.

Por isso, precisamos separar as coisas.

Nem toda pesquisa representa uso irresponsável.

Da mesma forma, nem todo consumo representa tratamento.

Nem toda comercialização segue critérios técnicos.

Além disso, nem todo profissional está preparado para conduzir esse tipo de acompanhamento.

Quando colocamos tudo no mesmo pacote, aumentamos a confusão.

Informação também é redução de riscos

Se realmente queremos reduzir riscos, proteger pessoas e permitir que a ciência avance, dificilmente construiremos esse caminho com medo ou desinformação.

Em vez disso, precisamos de educação, pesquisa, capacitação e responsabilidade.

Esse cuidado vale para quem tem curiosidade sobre o tema. Também vale para pacientes, familiares e profissionais que acompanham essas pessoas.

Nesse sentido, informação não significa defender uma substância nem condená-la. Significa compreender seus limites, seus riscos, o que já sabemos e, principalmente, aquilo que ainda precisamos descobrir.

Talvez este seja apenas mais um momento de aprendizado.

Espero que, no futuro, possamos olhar para este período como uma fase de transição. Quem sabe seja lembrado como um momento em que a informação começou, enfim, a ocupar o espaço do preconceito.

Como terapeuta, continuo acreditando que a informação transforma.

Primeiro, ela diminui o medo.

Depois, aproxima pessoas e permite conversas mais responsáveis.

Os acontecimentos passam. Enquanto isso, as manchetes mudam.

A ciência, porém, continua.

E a natureza também.

Silenciosa.

Esperando que a conheçamos melhor.

Talvez seja justamente nesse encontro entre natureza, conhecimento e responsabilidade que ela revele o que tem de mais extraordinário.

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Michelle Lanza

Fitoterapeuta, pesquisadora e colunista da Cannalize. Com formação em saúde integrativa e especialização em fitoterapia clínica, dedica sua escrita a conectar ciência, inovação e terapias naturais para ampliar a compreensão sobre saúde, frequências e sistemas regulatórios como o endocanabinoide. Sua coluna navega entre evidências científicas e aplicações práticas, com linguagem acessível e embasamento técnico. Com o objetivo de traduzir ciência complexa em conhecimento útil para profissionais, pacientes e curiosos.