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O protagonismo feminino na cannabis medicinal no Brasil



20/06/2026


Da luta das mães jardineiras ao empreendedorismo, o protagonismo feminino moldou a cannabis medicinal no Brasil.

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A história da cannabis medicinal no Brasil também é uma história escrita por mulheres.

Nesta coluna conjunta para a Cannalize, as advogadas Tais Correa e Juliana Sasso analisam como mães, cuidadoras, advogadas e empreendedoras ajudaram a transformar um tema antes marcado pelo tabu em um movimento social, jurídico e econômico que continua moldando o futuro do setor.

Parte 1 – Tais Correa

Como advogada, sócia do Correa Advocacia e empreendedora no mercado jurídico canábico, sinto que é fundamental resgatar e celebrar a história das mulheres que moldaram o cenário da cannabis medicinal no Brasil.

Minha jornada diária ao lado de pacientes e famílias me conecta profundamente com essa narrativa. E, em sua essência, ela é uma história de resiliência, coragem e amor.

O simbolismo feminino da cannabis

É fascinante observar como a própria biologia da planta Cannabis espelha o protagonismo feminino presente nesse movimento.

A Cannabis possui indivíduos machos e fêmeas. Para fins medicinais, o foco recai sobre as plantas fêmeas não polinizadas. São elas que produzem as flores, conhecidas como buds, ricas em tricomas — pequenas estruturas que funcionam como verdadeiras fábricas de canabinoides, como THC e CBD, além de terpenos.

Essas substâncias são responsáveis pelos efeitos terapêuticos da planta.

Já as plantas macho produzem pólen. Quando fertilizam as fêmeas, a energia da planta passa a ser direcionada para a produção de sementes, reduzindo a concentração dos compostos medicinais.

Essa característica biológica oferece uma metáfora poderosa: a força e a capacidade terapêutica residem justamente na flor feminina, responsável por oferecer cuidado e alívio.

As mulheres que mudaram a história da cannabis medicinal no Brasil

A história da cannabis medicinal no Brasil é inseparável da luta de mães corajosas.

Em 2014, a vida de Anny Fischer, uma menina diagnosticada com síndrome de CDKL5 e epilepsia refratária, tornou-se um marco nacional. Sua mãe, Katiele Fischer, travou uma batalha judicial pioneira para importar óleo de CBD para a filha.

A vitória não beneficiou apenas Anny.

Ela abriu caminho para milhares de famílias e pressionou a ANVISA a retirar o CBD da lista de substâncias proibidas em 2015.

Outras mães seguiram a mesma trajetória. Entre elas estão Margarete Brito, fundadora da APEPI, Cidinha Carvalho, da Cultive, e Ângela Aboin, da Mãesconha.

Todas transformaram dor pessoal em mobilização coletiva.

Em 2016, a ABRACE Esperança, na Paraíba, conquistou a primeira autorização judicial para cultivo coletivo de cannabis medicinal no Brasil. O episódio representou um passo decisivo para democratizar o acesso ao tratamento.

As mães jardineiras e a desobediência civil por amor

O termo “mães jardineiras” simboliza mulheres que, movidas pelo amor incondicional aos filhos, assumiram riscos jurídicos imensos para garantir tratamento.

Muitas enfrentaram acusações de tráfico. Ainda assim, persistiram na desobediência civil para cultivar a planta e produzir os medicamentos necessários.

Ângela Aboin, por exemplo, conquistou um dos primeiros habeas corpus individuais definitivos do país, garantindo o direito de cultivar cannabis para sua filha.

Hoje, mais de 8 mil habeas corpus já foram concedidos no Brasil nos últimos dez anos.

Esse avanço jurídico é reflexo direto da persistência dessas mulheres.

Em 2022, por exemplo, a Sexta Turma do STJ consolidou o entendimento de que o cultivo para fins medicinais não configura crime quando há prescrição médica e impossibilidade de importação.

No entanto, antes das decisões judiciais e da abertura regulatória, existiram mães que simplesmente decidiram agir.

A transformação começou dentro de casas, cozinhas e redes de apoio. Foi ali que muitos dos primeiros óleos artesanais foram produzidos.

Reflexão pessoal

Como mulher, advogada e sócia de um escritório especializado em cannabis medicinal — formado majoritariamente por mulheres — vejo essa história como um lembrete poderoso.

As maiores transformações sociais nem sempre surgem de cima para baixo.

Muitas vezes, elas nascem de movimentos populares impulsionados por pessoas que se recusam a aceitar o status quo.

A história da cannabis medicinal no Brasil prova que amor, resiliência e determinação feminina podem mover estruturas e reescrever leis.

É uma honra fazer parte dessa jornada e continuar o legado dessas mulheres extraordinárias.

Parte 2 – Dra. Juliana Sasso

Nada sobre nós sem nós

Quando falamos sobre o mercado canábico no Brasil, a conversa costuma caminhar rapidamente para a indústria farmacêutica, para os grandes players e para a regulação sanitária.

Falamos sobre autorizações da Anvisa, modelos de importação, investimentos e expansão de mercado.

Tudo isso importa.

Mas existe uma parte desse setor que não cabe apenas em gráficos, projeções financeiras ou relatórios de oportunidade.

Existe uma história construída por mulheres.

Mulheres que, muitas vezes, conciliam maternidade, cuidado, trabalho, militância, luto, reinvenção e sobrevivência.

É sobre essa dimensão que também precisamos falar.

Porque a cannabis medicinal no Brasil não começou em escritórios corporativos ou reuniões de conselho.

Ela começou dentro das casas.

Nas cozinhas.

Nas redes de apoio.

Na coragem de mães que se recusaram a assistir seus filhos sofrerem enquanto o Estado dizia que ainda não era possível acessar tratamento.

Por isso, é fundamental afirmar: nada sobre nós sem nós.

O mercado que nasceu do cuidado

O mercado canábico brasileiro não pode ser pensado, regulado ou narrado sem as mulheres que sustentaram esse movimento quando ele ainda era tratado como crime ou tabu.

bell hooks nos lembra que não existe amor sem justiça.

No contexto da cannabis, essa frase ganha um significado concreto.

O amor dessas mulheres nunca foi abstrato ou romantizado. Foi um amor político. Um amor que enfrentou medo, delegacias, fóruns, laudos médicos, julgamentos morais e noites sem dormir.

Agora que o mercado começa a se sofisticar, surge uma pergunta inevitável:

Quais mulheres estão sendo convidadas para essa mesa?

O ecossistema invisível do mercado canábico

Hoje, os grandes movimentos econômicos estão concentrados na indústria farmacêutica e nas empresas com estrutura regulatória e capacidade de dialogar com o Estado.

Esse caminho existe e precisa de segurança jurídica.

Mas existe outro ecossistema pulsando paralelamente.

É o turismo canábico.

São experiências de bem-estar.

São mulheres artesãs, produtoras de cosméticos naturais, alimentos terpenados, rodas de conversa, acolhimento, educação e cultura.

Muitas delas não aparecem como “players”, mas desempenham papel essencial na formação afetiva, simbólica e comunitária desse mercado.

O cuidado jurídico precisa ser diferente

Essas mulheres precisam de suporte jurídico que vá além de contratos padronizados e respostas genéricas sobre risco regulatório.

Muitas são mães.

Algumas são mães atípicas.

Grande parte empreende em meio à sobrecarga, à renda instável e à ausência de rede de proteção.

Quando uma empreendedora canábica busca orientação jurídica, ela não quer apenas saber o que pode ou não pode fazer.

Ela precisa proteger sua reputação, sua marca, sua narrativa, sua comunidade e sua própria segurança.

O direito, nesse contexto, não pode funcionar apenas como contenção de risco.

Ele precisa atuar como ferramenta de viabilização.

Precisa traduzir a regulação sem sufocar a criatividade.

Precisa organizar sem arrancar a alma do projeto.

Quem terá direito de prosperar?

O mercado canábico não será verdadeiramente inovador se repetir as mesmas estruturas de exclusão que historicamente afastaram mulheres, mães, pessoas negras, periféricas e cuidadoras dos espaços de decisão econômica.

Não adianta falar em futuro se o futuro for desenhado apenas por quem sempre teve acesso à mesa.

Antes de ser oportunidade de mercado, a cannabis foi desobediência, cuidado, ciência popular, associação comunitária e dor transformada em luta política.

Por isso, falar sobre empreendedorismo feminino na cannabis não é criar um recorte decorativo.

É falar sobre infraestrutura social.

A disputa pelo futuro do mercado

O papel da advocacia precisa acompanhar essa complexidade.

Uma associação criada por mulheres precisa de governança, mas também de proteção contra exploração do trabalho invisível e apagamento das fundadoras.

Uma empreendedora da cultura canábica precisa de contratos, mas também de proteção de marca, identidade visual e reputação.

Uma organizadora de eventos ou experiências canábicas precisa de análise de risco, mas também de caminhos possíveis para existir sem permanecer eternamente na informalidade.

Nesse ponto, a pauta deixa de ser apenas jurídica.

Ela se torna política, econômica e feminista.

Defender mulheres no mercado canábico é disputar quem terá direito de prosperar quando esse setor se consolidar.

Conclusão

A história da cannabis medicinal no Brasil não pode ser contada sem as mulheres.

Das mães que enfrentaram o Estado para garantir tratamento aos filhos às profissionais que hoje constroem empresas, associações, pesquisas científicas e soluções jurídicas, as mulheres continuam sendo protagonistas dessa transformação.

O Correa Advocacia tem orgulho de fazer parte desse movimento e reafirma seu compromisso com a liberdade terapêutica, o acesso à saúde e o fortalecimento do protagonismo feminino no setor.

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Correa Advocacia

O Correa Advocacia é um escritório especializado em Direito da Saúde, com atuação estratégica e contenciosa para garantir acesso a tratamentos, medicamentos e terapias. Também oferece suporte jurídico focado em cannabis medicinal, orientando pacientes, famílias e profissionais da saúde e buscando soluções — administrativas e judiciais — para viabilizar o tratamento com segurança.