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A morte é a única certeza que temos na vida



06/06/2026


A médica Raíssa Ximenes reflete sobre luto, morte e renascimento a partir da filosofia hindu, do tarot e de uma sensível experiência pessoal

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Para os hindus, a morte representa apenas o fim do corpo físico, não da existência. O corpo funciona como uma roupa temporária que a alma veste — ou, como gosto de chamar, um “receptáculo de alma”. Quando essa “roupa” envelhece ou se torna inabitável, a alma a abandona e assume uma nova forma.

Nesse sentido, o foco não está em evitar a morte, mas em escapar do renascimento. O objetivo da existência hindu é romper o Samsara, o ciclo de renascimentos, já que a vida terrena permanece ligada ao sofrimento e à ilusão. Assim, a Moksha surge como o objetivo espiritual supremo: a libertação definitiva desse ciclo.

Quando a alma alcança a Moksha, ela se funde ao absoluto (Brahman) e deixa de reencarnar, atingindo a paz eterna. Por isso, as escrituras hindus afirmam que morrer em Varanasi e ser cremado às margens do sagrado rio Ganges pode quebrar o ciclo de renascimentos e garantir a salvação.

Em um texto da BBC, o autor pergunta a um dos donos dos chamados “hotéis da morte” de Varanasi como é viver cercado pela morte. Ele responde: “Não temos medo da morte. Celebramo-la. As pessoas vêm aqui com esperança, não com medo… É a cidade do Senhor Shiva”.

Segundo a tradição hindu, Shiva é o deus da destruição. No entanto, ele destrói para recriar. Como diz um antigo ditado local: “Para chegar ao paraíso, primeiro é preciso morrer”.

O simbolismo da morte e do renascimento

Essa visão me lembra a carta da Morte no tarot. Apesar do nome assustador, ela simboliza renascimento, encerramento de ciclos e transformação. Ainda assim, culturalmente fomos ensinados a temer o desconhecido e a nos apegar ao que já temos — mesmo quando aquilo nos faz mal.

Death Symbolism on a Tarot Card

Por isso, a carta da Morte surge justamente para confrontar esse medo. Ela convida ao desapego. Assim como acontece na morte biológica, a mudança trazida por essa carta não pode ser parada nem negociada.

Na maioria das vezes, o sofrimento não nasce do evento em si, mas da resistência em aceitar que algo terminou.

A dificuldade de lidar com o luto

Como médica, eu deveria estar acostumada com a morte. Porém, não estou. Ainda me apego muito ao conceito ocidental da morte, tanto no sentido físico — com o luto tradicional — quanto na morte de ciclos, relações e versões de nós mesmos.

Além disso, o luto nunca é simples.

No livro A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver, a médica geriatra e paliativista Ana Claudia Quintana Arantes compartilha relatos reais de pacientes que, ao se sentirem amparados, conseguem viver momentos de alegria nas últimas semanas de vida.

A autora descreve de forma poética como uma lágrima derramada no leito de morte nem sempre nasce do desespero. Muitas vezes, ela representa libertação, coragem e a possibilidade de encerrar a própria história de maneira íntegra e em paz.

Em essência, o livro nos convida a repensar prioridades.

O que fica enquanto estamos vivos

Perdi meu companheiro Bowie, meu gato, em apenas três dias. Foi devastador. Ainda assim, quanto mais estudo sobre a morte, mais consigo digerir a perda — embora essa digestão continue lenta e complicada.

No fim, tudo o que nos resta é aproveitar o presente ao lado de quem amamos. Precisamos demonstrar afeto, oferecer perdão e viver momentos de alegria enquanto ainda há tempo. Afinal, a morte continua sendo a única certeza que temos na vida.

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Raíssa Ximenes

Médica pela Universidade Federal de Alfenas. Prescrevendo Cannabis Medicinal desde 2022, com enfoque em Saúde Mental. Vegetariana, amante da sétima arte, da boa música e de explorar o mundo. @doutorapsicannabis