O desafio da terapia com canabinoides pode estar menos na molécula e mais na forma como ela é usada na prática clínica.

O THC já atravessou praticamente todas as barreiras que costumavam limitar sua entrada na medicina: a barreira científica, a regulatória, a farmacêutica e a cultural. E, ainda assim, continua distante de se tornar uma ferramenta verdadeiramente confiável na prática clínica da dor.
Essa contradição revela algo importante: talvez o problema nunca tenha sido apenas a molécula.
O desafio do THC na medicina da dor já não é apenas provar que ele pode funcionar. É torná-lo utilizável na prática clínica do dia a dia.
Em consultórios de dor no Brasil, na Alemanha e na Austrália, as mesmas explicações continuam aparecendo:
“A ciência ainda está no início.”
Não exatamente. O THC foi identificado há mais de 60 anos.
“Isso nunca virou um medicamento farmacêutico de verdade.”
Virou. O THC tornou-se farmacêutico muito antes de a “cannabis medicinal” surgir como categoria. A GW Pharma passou mais de duas décadas e investiu mais de um bilhão de dólares no desenvolvimento de medicamentos registrados à base de canabinoides como Sativex e Epidiolex.
“A cannabis não atende a exigências regulatórias rigorosas.”
Atende, sim. Médicos da dor na Alemanha prescrevem THC farmacêutico há mais de vinte anos. Desde então, mais de 100.000 pacientes com dor foram tratados com dronabinol, uma solução oral de THC a 2,5%, totalmente reembolsada pelo sistema público de saúde alemão.
“Não há evidência suficiente.”
Essa é a objeção mais séria. Dor não é uma única doença, e os sinais dos estudos randomizados permanecem mistos. Mas o conjunto de evidências em mundo real já não é trivial. O regulador alemão BfArM acompanhou mais de 15.000 pacientes com dor, com médicos relatando melhora clínica relevante em mais de 60% dos casos e cerca de 70% de adesão ao tratamento.
Relevante o suficiente para importar. Crível o suficiente para não ser ignorado.
Ainda assim, o THC não se tornou um tratamento que médicos consigam usar com confiança e consistência na prática clínica diária.
Esse é o verdadeiro problema.
Por que algo que claramente pode ajudar ainda permanece marginal na prática da dor, depois de tantos anos?
Os médicos não hesitam por falta de abertura nem por preconceito. Hesitam porque a terapia com canabinoides exige uma abordagem altamente personalizada. E essa personalização entra em uma rotina clínica que muitas vezes já opera no limite.
No início do tratamento, não basta prescrever. E preciso ajustar dose e ritmo de titulação, monitorar efeitos adversos e tolerabilidade, e ainda sustentar a confiança e a adesão do paciente ao tratamento. Isso pesa ainda mais quando as orientações de dose permanecem abstratas.
“Start low, go slow” é um bom princípio de segurança para casos mais simples, especialmente quando o tratamento é com CBD. Mas não é um sistema clínico. Não é suficiente quando se inicia o tratamento com THC de um paciente idoso com dor crônica que nunca usou cannabis antes. Não é suficiente quando o paciente precisa um caminho claro da primeira prescrição até a estabilização do tratamento.
Quando THC entra na dor crônica, segurança exige mais do que prudência. Exige estrutura.
E, honestamente, a indústria de cannabis ainda ajudou pouco nesse ponto.
Como indústria, criamos produtos mais rápido do que construímos a estrutura clínica necessária para usá-los bem. Oferecemos formulações, proporções, CoAs e portfólios — mas muitas vezes deixamos os médicos carregarem sozinhos o sistema de tratamento.
Portanto, o problema não está na molécula. Está no sistema ao redor dela.
A terapia com canabinoides precisa de um sistema operacional clínico simples: seleção de pacientes, titulação, manejo de efeitos adversos, acompanhamento, acessibilidade e continuidade — estruturado o suficiente para funcionar na prática diária, mas flexível o bastante para preservar o julgamento médico.
É nesse ponto que a terapia com canabinoides se torna medicina — ou permanece uma promessa difícil.
Portanto, a pergunta já não é se o THC pertence à medicina da dor. A pergunta é como transformá-lo em uma terapia que médicos consigam aplicar com confiança, previsibilidade e continuidade no mundo real.
É aí que começa a próxima parte desta história.
Oliver Zügel
Oliver Zügel é fundador e CEO da FoliuMed, empresa internacional de cannabis medicinal com atuação no Brasil, Alemanha e Austrália. Alemão de origem, construiu grande parte de sua trajetória profissional na América Latina, desenvolvendo uma visão próxima dos desafios reais de acesso, regulação, custo e prática clínica na região. À frente da FoliuMed, atua como uma ponte entre a experiência de mercados regulados mais maduros e a realidade da medicina canabinoide latino-americana, com foco em tornar terapias à base de canabinoides mais previsíveis, seguras e aplicáveis no dia a dia médico. Seu trabalho atual concentra-se especialmente em dor crônica, protocolos estruturados de tratamento e geração de evidência em mundo real.
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