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The Lancet: um golpe direto na medicina popular



11/04/2026


Quando estudos arbitrários sobrepõem a prática integrada, o conhecimento se despedaça e deixa de servir a quem importa

Economia, saúde e sua relação direta

The Lancet: um golpe direto na medicina popular

Para os mais desavisados, em março de 2026, a revista científica inglesa The Lancet disponibilizou uma metanálise de 54 artigos focados no uso medicinal de cannabis.

A partir dessa análise, a conclusão foi simples e direta, baixas evidências, baixos benefícios, baixa segurança e alto risco de dependência, além da necessidade de mais estudos que possam comprovar reais benefícios do uso medicinal da maconha.

Uma conclusão muito diferente do que pacientes e profissionais de saúde relatam em sua rotina clínica.

Já virou rotina encontrarmos profissionais considerados como “referências” dizerem que cannabis, ou melhor, canabidiol não tem valor terapêutico algum e até mesmo que as melhoras encontradas nos pacientes são tímidas e isso reflete todo o trabalho feito pela indústria farmacêutica na educação de médicos nos últimos 200 anos.

Leia também: The Lancet questiona eficácia de cannabis para depressão

Curandeirismo vs Ciência

No Brasil, as práticas consideradas “médicas” sempre se fizeram presentes através de pajés, benzedeiras, pais e mães no santo que, através de conhecimentos tradicionais sobre os fitoterápicos, tratavam do filho de senhor de engenho até o nativo. 

Porém, com o fortalecimento do cientificismo na Europa e do surgimento da indústria farmacêutica por volta de 1860, esse tipo de conhecimento começou a ser criminalizado.

Foi em meados de 1940, quando a indústria farmacêutica chegou ao Brasil com suas fábricas para produção nacional de medicamentos sintéticos, que as leis anti curandeirismo foram aprovadas e esse tipo de conhecimento ficou restrito às periferias. 

Métodos de “análise segura” são mesmo seguros?

Com o passar do tempo e com a regulamentação da indústria farmacêutica e dos órgãos sanitários, alguns métodos de análise foram criados para que apenas produtos considerados seguros e eficazes fossem aprovados para disponibilização ao público, em sua grande maioria, compostos sintéticos e/ou isolados. 

Sendo assim, para que um novo medicamento seja aprovado, é necessário que ele cumpra o objetivo dele, mas o impacto real, sustentável e útil desse medicamento no mundo real, será avaliado apenas quando tal medicamento estiver disponível para compra na drogaria ou farmácia mais próxima de você.

Temos dois exemplos que caracterizam bem a dualidade desse processo, a dipirona e o rimonabanto

A dipirona foi lançada no mercado em 1922, e até hoje existem suspeitas de como é o seu real mecanismo de ação. Mesmo assim, ela é a escolha número 1 de qualquer médico quando falamos de alívio da dor. 

Quando falamos do rimonabanto já temos uma questão totalmente diferente. Esse medicamento aprovado em 2006 bloqueia os receptores CB1 do sistema endocanabinoide e foi amplamente utilizado para perda de peso. 

Porém um detalhe muito importante não foi checado. Os receptores CB1 localizados majoritariamente no cérebro atuam em processos de modulação de humor. Ao bloquear esses receptores, os pacientes apresentavam uma apatia gigantesca a ponto de atentar contra a própria vida. O resultado? A proibição deste medicamento.

Quando o capital intervém no proibicionismo

Mesmo sendo amplamente utilizada para as mais variadas moléstias, por diversos povos diferentes e por mais de 6000 anos, a cannabis passou dois séculos proibida devido a interesses de cientistas, políticos e capitalistas que estavam perdendo mercado. 

Porém, a partir do momento em que os investidores farmacêuticos perceberam o potencial bilionário que a cannabis tinha, direcionaram altos investimentos em sintetizar moléculas similares ao CBD e ao THC. Coincidência ou não, muitos dos estudos analisados pela Lancet foram com esse tipo de composto, isolados com baixa eficácia. 

Isso faz com que até hoje, mesmo com muito mais informações disponíveis sobre a terapia com cannabis, o potencial terapêutico deste recurso seja reduzido a estes dois simples canabinoides, que são muito mais fortes quando combinados e indicados de maneira adequada por um profissional legalmente habilitado. 

Em termos simples, os fitocanabinoides podem mudar a vida de uma pessoa.

Simplificar o potencial terapêutico da cannabis em apenas moléculas isoladas é negar a complexidade que existe no sistema endocanabinoide, no efeito comitiva e nos milhares de anos de evolução que a planta passou. 

Não é à toa que a maioria dos estudos de vida real, são feitos com formulações de espectro completo (full spectrum). É muito importante entender que terpenos e flavonoides também vão apresentar seu valor dentro de uma terapia que integra múltiplos conhecimentos para ansiedade ou TEA, por exemplo.

Não é à toa que os próprios pesquisadores da Lancet trouxeram a necessidade de mais estudos para avaliar o real potencial da cannabis. O grande foco agora é em incentivar mais profissionais, que estão prescrevendo e observando melhoras significativas em seus pacientes, compartilhem este conhecimento e publiquem tais estudos. 

O futuro é multidisciplinar

A combinação entre Ensaios Clínicos Randomizados e Evidências de Mundo Real é a chave para que mais pacientes se beneficiem da terapia com cannabis e possamos finalmente melhorar a maneira como a ciência mainstream é divulgada atualmente. 

A terapia com cannabis não é um protocolo qualquer que pode ser aplicado em uma consulta de 5 minutos, é necessária uma investigação do histórico do paciente, olhar a individualidade do quadro, bem como adaptar a terapia farmacológica e ocupacional.

A bancada de laboratório é muito importante, porém o dia-a-dia na clínica também é. 

É extremamente necessário que ambos se apoiem para que possamos melhorar a qualidade das evidências que são divulgadas para o público. Fragmentar o conhecimento faz com que a ciência sirva apenas aos interesses de quem investe para aquele lado da história.

Já passou da hora da ciência parar de servir os interesses do capital e servir a quem realmente precisa.

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Clube Diambista

Inspirado pela tradição histórica dos antigos clubes diambistas brasileiros, o farmacêutico Guilherme Salgueiredo propõe um espaço de estudo e reflexão sobre a Cannabis. Nesta coluna, ciência, história e prática clínica se encontram para ampliar o entendimento sobre o uso medicinal da planta e fortalecer a educação em saúde baseada em evidências.