
A proibição dos psicodélicos pode salvá los
Os debates sobre a legalização ou proibição dos psicodélicos, mostrou que não basta apenas revisar leis; também é essencial proteger culturas tradicionais e preservar recursos naturais.
No caso da Amazônia, por exemplo, dados recentes apontam que a maior floresta tropical do planeta passou a emitir mais CO₂ do que absorver, devido à expansão da pecuária. A flexibilização das regulamentações durante o governo Bolsonaro facilitou o desmatamento, colocando em risco o equilíbrio climático.
Ao mesmo tempo, comunidades indígenas têm reagido à exploração predatória dos seus territórios. Assim, originários da Amazônia processaram a rede de supermercados francesa Casino por comprar carne da JBS, acusada de se abastecer de frigoríficos ligados ao desmatamento.
A polêmica chamou a atenção dos varejistas europeus, que hoje dizem estar dispostos até a boicotar produtos brasileiros, caso o modelo de produção não mude significativamente.
Nesse contexto, surgem perguntas fundamentais. Por que manter substâncias psicodélicas como o peyote na ilegalidade? A razão invocada por alguns povos nativos é a necessidade de conservação biocultural.
Eles argumentam que, se o peyote se tornar legal para uso recreativo ou terapêutico, aumentará a demanda, e isso poderá levar ao colapso populacional da planta, que leva décadas para amadurecer.
De fato, o peyote cresce lentamente — demora mais de dez anos para atingir maturidade — e já sofre com as mudanças climáticas e o esgotamento do solo em regiões do México.
Logo, muitos acreditam que sua legalização poderia inviabilizar os esforços de conservação. Por isso, o Comitê de Comunicação para a Conservação do Peyote Indígena (IPCCC) manifestou-se a favor de manter o peyote ilegal, justamente para evitar que o padrão de coleta predatória se intensifique.
Outro ponto sensível envolve a ayahuasca, consumida tradicionalmente em cerimônias espirituais na Amazônia. A difusão dessa bebida entre turistas ocidentais aumentou a pressão sobre a Banisteriopsis caapi e outras plantas que contêm DMT.
Em consequência, curandeiros self-made passaram a se embrenhar ainda mais na floresta para obter os ingredientes, o que traz riscos à biodiversidade e à saúde pública.
Além disso, fontes como The Guardian alertam que a escassez de folhas de chacruna leva ao uso de substitutos potencialmente perigosos, como a huambisa e o toé — um risco elevado de intoxicações.
Além das plantas, a proteção de anfíbios também se tornou um tema urgente. Extrair o 5-MeO-DMT do sapo Bufo alvarius e o kambó da Phyllomedusa bicolor está cada vez mais comum. Entretanto, a coleta dessas secreções exige estresse violento aos animais, muitas vezes levando-os à morte — prática que coloca em risco populações e prejudica ecossistemas.
Em vista disso, personagens como David Bronner, CEO da Dr. Bronner’s e defensor dos psicodélicos, defendem a necessidade de se priorizar a conservação ecológica e cultural no âmbito da despenalização.
Ele ressalta que os povos indígenas — especialmente a Native American Church — já lideram programas de cultivo sustentável do peyote com base na Lei de Liberdade Religiosa dos Índios Americanos. Para Bronner, não faz sentido que o Estado interfira num esforço que as próprias comunidades conduzem de forma eficaz.
Por outro lado, também se discute o potencial dos psicodélicos em promover transformações sociais. Muitos acreditam que experiências terapêuticas profundas podem inspirar movimentos ambientais mais robustos.
Nesse sentido, ouvir vozes indígenas não apenas protege plantas lendárias, mas também pode gerar conscientização sobre a importância de preservar a Terra como um todo.
Contudo, na prática, isso demanda diálogo e respeito. De um lado, várias cidades e estados dos EUA — como Washington D.C., Denver e Oregon — começaram a descriminalizar ou mesmo legalizar o uso terapêutico da psilocibina.
De outro, esse processo que legaliza os psicodélicos precisa incorporar salvaguardas destinadas a proteger tanto a biodiversidade quanto as culturas tradicionais que dependem dessas substâncias.
Para que essa transição ocorra de forma ética, é fundamental adotar regulamentos que permitam:
Somente assim conseguiremos equilibrar a crescente demanda por terapias psicodélicas com a urgência de proteger o patrimônio natural e ancestral.
Nesse sentido, as lideranças indígenas nos ensinam que a cura individual — conquistada por meio dessas substâncias — pode, sim, reverberar na cura coletiva, mas apenas se preservarmos a origem e o sentido dessas plantas sagradas.
Texto traduzido do portal Psychedelic Spotlight
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Redação
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