MST inicia processo para criar sua primeira cooperativa de cannabis medicinal, marcando avanço histórico para a agricultura familiar no Brasil.

MST se prepara para produzir cannabis via cooperativismo. Foto: Lucas Panoni
Na última sexta-feira (14), durante o Fórum Internacional da Expocannabis Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra deu um passo decisivo no debate sobre cannabis. O movimento anunciou que vai iniciar, ainda em dezembro, o processo jurídico para criar sua primeira cooperativa dedicada à produção de cannabis medicinal no Brasil.
A iniciativa nasce no sertão nordestino e conta com apoio de associações que já possuem autorização judicial para cultivar a planta em Pernambuco e na Paraíba. O projeto marca um momento histórico para a agricultura familiar e reforça a entrada do MST em uma pauta estratégica para saúde, economia e inovação no campo.
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Para o MST, a cannabis é um tema que atravessa saúde pública, desenvolvimento econômico e soberania produtiva. Segundo o coordenador nacional Joba Alves, o assunto evoluiu de discussões internas para uma fase concreta de organização.
“A gente entende que é um debate que precisa ser politizado, a sociedade precisa entender do que a gente está falando, dos aspectos da saúde, dos aspectos industriais que essa planta pode gerar de economia para vários setores da sociedade. Então, a gente precisa descriminalizar e quebrar os paradigmas, entender o que está em jogo e discutir um modelo que seja viável e democrático para acesso a todos”, explica Joba.
O movimento acompanha experiências de associações e cooperativas em diferentes estados, o que amplia o conhecimento técnico e mostra como a cannabis pode fortalecer a agricultura camponesa e familiar.
A criação da primeira cooperativa voltada à produção de cannabis no MST está em fase de preparação. Segundo o Dr. Elâmpio Dantas, um dos responsáveis pelo projeto, o trabalho começou com a análise do território e a estruturação necessária para iniciar o cultivo.
“A gente já vem fazendo o mapeamento dos melhores locais, os locais mais seguros, onde tem a melhor qualidade de terra. Agora, a gente vai criar a instituição como tal e começar a tramitar no Poder Judiciário”, explica.
Com isso, o grupo pretende registrar oficialmente a cooperativa em dezembro e iniciar o processo judicial para solicitar autorização de funcionamento. Essa etapa ainda é indispensável, já que o Brasil não possui legislação específica para regular o cultivo comercial de cannabis.
Para o MST, o modelo cooperativista pode ser o caminho mais democrático para organizar a produção de cannabis medicinal no Brasil — especialmente quando houver uma regulação federal mais clara. Joba admite que o movimento entrou tarde no debate, mas destaca que o tema se tornou urgente.
“O conjunto não se apropriou desse debate há tempos, mas a gente não pode deixar que isso seja uma própria ação do agronegócio, das empresas transnacionais, e que a gente fique fora desse debate. Ou seja, é complicado não fazer parte.”
A visão é compartilhada por Enor Machado, presidente da Associação Flor da Vida, que participou da articulação com o MST. Segundo ele, uma cooperativa pode reduzir custos, descentralizar a cadeia e evitar o monopólio do setor.
“Essa novidade é tudo de bom, porque nós do movimento da cannabis de associativismo sentimos falta de uma cooperativa que concentre as compras, que melhore os preços, os insumos… Se era tudo muito caro, tudo muito difícil, essa é uma boa resposta.”
Com a formalização da cooperativa e o início do processo judicial, a pauta da cannabis no MST tende a ganhar força. O movimento pretende continuar articulado com associações, pesquisadores e agricultores familiares para construir um modelo transparente e acessível de produção de cannabis no Brasil.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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