
Psilocibina entre o sagrado ancestral e a medicina do futuro
Ao longo da história da humanidade, os estados ampliados de consciência sempre foram considerados portais de cura, aprendizado e conexão espiritual. Entre os elementos que proporcionaram essas experiências, os cogumelos psicoativos – especialmente os que contêm psilocibina – ocupam um lugar central em diversas culturas.
Um dos nomes mais emblemáticos dessa tradição é o de Maria Sabina, curandeira e poeta mazateca do sul do México.
Na metade do século 20, Maria tornou-se conhecida por preservar e compartilhar os saberes cerimoniais do uso dos “niños santos” – como chamava os cogumelos sagrados. Seu uso não era recreativo, mas profundamente espiritual, voltado à cura do corpo e da alma.
Décadas mais tarde, a ciência começa a validar o que tradições ancestrais já sabiam: a psilocibina possui um notável potencial terapêutico.
Estudos ao redor do mundo vêm demonstrando sua eficácia no tratamento de depressão resistente, ansiedade relacionada a doenças graves, TEPT (Transtorno do Estresse Pós-traumático) e até dependência química.
Atualmente, países como a Austrália e a Nova Zelândia já legalizaram o uso médico da psilocibina em contextos clínicos controlados, voltados especialmente para casos de depressão refratária, quando os tratamentos convencionais não funcionam.
Os resultados têm sido promissores, com relatos de alívio duradouro dos sintomas e melhora significativa na qualidade de vida dos pacientes.
Na Alemanha, um novo marco foi alcançado recentemente: o país aprovou o uso compassivo da psilocibina, permitindo que pacientes com condições psiquiátricas graves tenham acesso ao tratamento mesmo fora de estudos clínicos.
Vale lembrar que em 1º de abril de 2024, a Alemanha também passou a permitir o uso adulto da cannabis, consolidando um novo paradigma na política de drogas e saúde mental.
E o Brasil também começa a caminhar nesse sentido. Um estudo inédito conduzido pelo Instituto Alma Viva em parceria com a BioCase Brasil está em andamento, focado no uso terapêutico da psilocibina para casos de depressão resistente.
A pesquisa representa um marco importante, abrindo espaço para que, futuramente, a substância possa ser regulamentada e acessada legalmente por quem mais precisa, de forma segura e ética.
O que estamos testemunhando é o nascimento de uma nova medicina, que honra o saber ancestral ao mesmo tempo em que se ancora na ciência moderna.
A psilocibina, como outras medicinas da natureza, deixa de ser tabu para se tornar ferramenta. O desafio agora é garantir que essa ferramenta seja usada com respeito, segurança e responsabilidade.
Integrar ciência e espiritualidade, tradição e inovação, não é apenas possível: é necessário. A medicina do futuro pode, e precisa, nascer da terra e valorizar um saber ancestral.
As colunas publicadas na Cannalize não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem o propósito de estimular o debate sobre cannabis no Brasil e no mundo. Além de de refletir sobre diversos pontos de vista sobre o tema.
Lucas Lomba
Dr. Lucas Monteiro Lomba, Médico Especialista em Acupuntura com Especialização em Dor pela USP. Prescritor de Cannabis Medicinal e Palestrante. CRM-SP 154.510 | RQE 133743
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