• 17 de abril de 2021

“Se os canabinoides da cannabis servem de tratamento, como a mesma molécula vinda de outra planta não pode servir também?”

 “Se os canabinoides da cannabis servem de tratamento, como a mesma molécula vinda de outra planta não pode servir também?”

Brenda na esquerda e Sabrina na direita – Arquivo Pessoal

Essa foi a indagação de duas estudantes do ensino médio, que encontraram canabinoides na arruda. A descoberta ocorreu enquanto exploravam plantas mais acessíveis no Brasil.

Duas estudantes do ensino médio descobriram canabinoides na arruda, uma planta aromática com propriedades medicinais.

A descoberta pode ser uma nova opção para alguns tipos de tratamentos, uma vez que estas moléculas podem ser de grande ajuda no organismo.

Isso porque as substâncias podem interagir com o nosso corpo, dando suporte aos nossos próprios canabinoides.

Para entender melhor, basta falarmos da cannabis. São os canabinoides encontrados na planta que auxiliam em condições como Epilepsia Refratária, Esclerose Múltipla e até Parkinson, por exemplo.

Brenda na esquerda e Sabrina na direita – Arquivo Pessoal

O óleo extraído da cannabis tem servido de tratamento alternativo mais rápido e com menos efeitos colaterais.

Contudo, o extrato da planta costuma ser bem caro, por causa das restrições e proibição do plantio. Para o tratamento de Parkinson, por exemplo, o óleo extraído da planta precisa ser importado ou obtido com alguma associação.

Arruda como alternativa

Brenda Victoria Facchini Bonatto, 17, e Sabrina Machado Zaro 18, ainda no ensino médio, buscavam uma forma de encontrar canabinoides mais acessíveis, uma vez que a cannabis é ilegal.

A ideia foi da Sabrina. Ela sempre tentou se informar a respeito da doença de Parkinson por causa da sua avó que sofre com a doença.

Parkinson é uma condição que atinge o Sistema Nervoso Central e compromete os movimentos. A síndrome é a segunda doença neurodegenerativa que mais causa demência no mundo, a primeira é Alzheimer.

A estudante buscava meios de ajudá-la de alguma forma, pois os tratamentos convencionais para a doença, não são tão eficientes.

O Parkinson não tem cura e nem medicamentos para a prevenção. Por isso, o tratamento é direcionado para os alívios dos sintomas e também a redução da progressão da doença.

Nem sempre o tratamento é eficaz. Os remédios podem diminuir a efetividade com o tempo para uma grande parcela de pacientes, além de gerar efeitos colaterais, como a ampliação dos movimentos involuntários.

“A nossa busca principal era uma planta que fosse de fácil plantio, que não fosse proibida no Brasil, que possuísse canabinoides e que não fosse cara.” Acrescenta Brenda.

O que mais chamou a atenção de Sabrina foi o famoso vídeo do Larry Smith, que melhora os tremores pouco tempo depois de utilizar a cannabis.

Em poucos minutos o personagem viralizou no Youtube, com mais de 40 bilhões de visualizações em 2016. No vídeo, o paciente que viva com Parkinson há 20 anos, tremia e tinha dificuldades para falar e se locomover.

É só depois de algumas gotas do óleo embaixo da língua que em questão de minutos, os sintomas diminuem.  Segundo entrevistas, Smith já havia tentado de tudo, até mesmo a cirurgia, para conter os avanços da doença.

A história do homem virou até um documentário ganhador de vários prêmios, chamado “Ride with Larry” que foi traduzido para “Viajando com Larry”, onde contou a jornada sobre o seu tratamento com a cannabis.

Extrato da Arruda

Contudo, como dito, a cannabis é bastante restrita no Brasil, por isso, as meninas buscavam outra forma de obter este tipo de molécula.

“Depois de pesquisar muito, encontramos um artigo em inglês que fala sobre a possibilidade de existir canabinoides na Arruda. No meio do caminho, encontramos outras plantas, como uma flor e uma pimenta. Porém a pimenta era muito cara, pois era importada e a flor era proibida no Brasil” acrescenta Brenda.

Mesmo assim, pesquisar sobre as substâncias na arruda não foi uma tarefa fácil. Não tem muito tempo que os canabinoides foram descobertos.

Para se ter uma ideia, artigos até sobre os canabinoides da cannabis ainda estão sendo explorados.

“Acho que a maior dificuldade foi achar bibliografias e materiais para usar no nosso relatório, e também para usar como referências de que linha seguir.” Acrescentam.

Sabrina na esquerda e Brenda na direita – Arquivo Pessoal

As meninas contam que conseguiram fazer um extrato da arruda no laboratório da escola, onde realizaram três testes diferentes. No fim, chegaram à conclusão de que é possível que eles possam exercer o mesmo papel da cannabis.

“Se os canabinoides da cannabis servem de tratamento para Parkinson, como a mesma molécula vinda de outra planta não pode servir também? Tem tantas plantas no mundo, não é possível que só uma tenha canabinoides.” Indagou Brenda.

O projeto trouxe às meninas o título de finalistas da maior feira pré-universitária de Ciências e Engenharia do país (Febrace).

Um longo caminho

Contudo, o professor de Medicina e Biociências da Universidade Federal da Integração Latino-América (UNILA), Francisney Nascimento, acrescenta que investigar outras plantas, apesar de necessário, é ter que começar tudo do zero.

“Uma coisa é a gente encontrar os princípios ativos em uma planta, seja ela qual for. Outra coisa é domesticá-la. Para isso, é necessário fazer longas plantações, com padrões iguais, de boa qualidade e que possamos saber os níveis de canabinoides certos que ela produzirá.” Acrescenta.

Apesar da cannabis ainda precisar de estudos, as pesquisas são mais avançadas, em relação a outras substâncias com canabinoides.

O professor ainda acrescenta que até agora, a cannabis foi a planta com mais canabinoides e melhor de ser aproveitada.

Contudo, ainda estamos no início e as meninas esperam que um dia alternativas como esta possam ser exploradas para reduzir os preços dos medicamentos com as substâncias.

“Mesmo que os nossos avós não possam usar o medicamento (da arruda ou outras plantas), a gente espera que mais ninguém precise ver os seus parentes sofrendo com a condição” concluiu Sabrina.

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Tainara Cavalcante

Jornalista e produtora de conteúdo no Cannalize. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.

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