• 27 de junho de 2022

Pacientes entram na justiça para não serem considerados criminosos

 Pacientes entram na justiça para não serem considerados criminosos

Duas pessoas completamente diferentes, com doenças diferentes, entraram na justiça para o mesmo fim: Plantar cannabis para garantir o seu tratamento. 

Estima-se que centenas de pessoas cultivem a cannabis no Brasil de forma legal. Elas são amparadas a partir de processos em que a justiça concede o chamado salvo-conduto, em que ela se torna uma exceção.

Ná há uma quantidade certa de pessoas que conseguem o direito na justiça, pois os processos são sigilosos. Contudo, o número tem crescido conforme a importação também cresce.

 De acordo com dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os brasileiros importaram 40.191 mil produtos à base de cannabis só em 2021.São pessoas com histórias, condições e problemas distintos, mas que acharam na cannabis uma solução. 

Uma coisa em comum

Como por exemplo, Wilson Christofoletti e o guia de turismo Pedro Moya, dois homens que não se conhecem,  vivem em lugares diferentes e com profissões diferentes. 

E  mesmo com doenças totalmente opostas, tanto um quanto o outro obtiveram o direito de cultivar cannabis na justiça recentemente. 

Ambos os processos foram feitos pelos advogados Gabriel Pietricovsky e Davi Marques, que trabalha com o foco nisso. Ele já atendeu mais de 30 pacientes com autismo, câncer, enxaqueca, ansiedade, depressão entre outras patologias.

“Quanto mais a gente vai atrás de conhecimento, a gente tem uma percepção da amplitude que essa planta pode alcançar”, ressalta.

De acordo com um levantamento feito pela Kaya Mind, os médicos já prescreveram mais de 16 mil receitas para mais de 40 diferentes tipos de patologia nos últimos três anos. 

Como tudo começou? 

Wilson Christofoletti trabalhou durante muito tempo na indústria automobilística. Por causa dos movimentos repetitivos, ele acabou tendo uma hérnia de disco na década de 1990. Ele chegou a operar em 1997, mas foi aí que um problema maior começou.

Ele passou a ter dores maiores por causa de sequelas na coluna, que não passavam com nada. “Tentei vários tratamentos, medicamentos, fisioterapia, acupuntura, mas a qualidade de vida só estava piorando”, relata.

A condição não é tão incomum assim. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística  (IBGE) a hérnia de disco afeta 5,4 milhões de brasileiros, principalmente depois dos 50 anos. 

Mesmo após a cirurgia, as dores neuropáticas estavam afetando as pernas e os braços do funcionário público. E ele, perdendo a qualidade de vida.

Foto: Wilson Christofoletti (arquivo pessoal)

Bebida como porta de entrada

Em paralelo, Pedro Moya, que mora em São Paulo, sofria com o vício no álcool desde a adolescência. Ele era sempre aquela pessoa que exagerava e vomitava quando bebia, mas continuava bebendo. 

O seu tio morreu com 45 por causa do álcool, mas parece que isso não foi o suficiente. Tanto que ele foi internado por duas vezes, uma quando ainda tinha 17 anos. 

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o álcool é responsável pela morte de 300 mil pessoas todos os anos nos países americanos, principalmente no Brasil. 

“O álcool sempre esteve presente na minha vida e ele sim foi a porta de entrada ao invés da maconha”, ressalta. “Quando eu bebia, eu nunca queria usar maconha antes ou depois, mas sim cocaína e me prejudiquei diversas vezes.”

Descobrindo o potencial da cannabis

Tanto Wilson quanto Pedro percebiam que quando fumavam maconha, as coisas melhoravam um pouco. No caso do ex-operário, a dor diminuía. E para Pedro, ele sentia menos necessidade de consumir o álcool. 

Isso porque a cannabis trabalha no chamado Sistema Endocanabinoide, um sistema que funciona à nível celular restaurando o equilíbrio da homeostase, ou seja, regulando várias funções do organismo.

Há receptores canabinoides por todo o corpo, que podem aceitar os canabinoides que vem de fora (sim, o corpo produz essas substâncias), como os da cannabis. Isso pode influenciar a fome, o humor, o sono, o sistema imunológico e até o sistema nervoso central. 

Experiência 

O resultado do óleo de cannabis foi rápido e eficaz. O ex-operário de Piracicaba (SP) conta que as dores na lombar reduziram consideravelmente. 

Tanto que ele até decidiu comprar para o seu pai, que aos 87 anos, sofre de Parkinson e tinha vários transtornos com remédios alopáticos fortes. 

 “Conversei com os médicos dele, consegui tirar todos os medicamentos alopáticos e acrescentei o óleo  e hoje ele está 100% ótimo, nem se fala mais”, ressalta. “Ele rejuvenesceu uns 30 anos e tem uma qualidade de vida melhor”, diz. 

Óleo combinado com a maconha

Já o guia sempre pensou na cannabis como uma opção fumada. Depois que percebeu que a planta poderia ser uma aliada, Pedro passou a entender mais sobre a erva e a fazer escolhas melhores.

Foto: Pedro Moya (Arquivo Pessoal)

“Primeiro eu comecei a procurar uma maconha de melhor qualidade, de saber como plantava, como fazer, fui atrás de flor”, diz. 

Mas foi em 2018, depois que ele fez um curso sobre cannabis, a sua mente começou a se abrir para a questão medicinal. Ele finalmente buscou um médico e passou a fazer um tratamento focado no óleo. 

“Eu comecei a perceber que fumar em tal hora, associado ao óleo, tinha efetividade que realmente me ajudava.”, diz. “É interessante como o óleo modifica a minha relação com o fumo. Agora é de forma muito mais regrada, como se eu conseguisse me relacionar com ela de dois modos: recreativo e medicinal. É muito raro eu fumar de forma recreativa.”, conta.

Hoje ele se mantém abstêmio e mais equilibrado comprovando o sucesso do tratamento a base de cannabis medicinal.

Há evidências científicas? 

De acordo com um estudo desenvolvido pela USP de Ribeirão Preto em setembro do ano passado, a cannabis pode ser útil para o tratamento de dores crônicas, além de comorbidades associadas como a ansiedade, por exemplo.

Publicada na revista científica Neuropharmacology, o uso da cannabis reduziu a percepção da alodinia, que se refere a dores com um simples toque ou estímulo. Assim como reduziu a  hiperalgesia térmica, a dor provocada quando o calor aumenta. 

Isso porque tanto o Tetrahidrocanabinol (THC) quanto o Canabidiol (CBD) na cannabis provocam efeitos analgésicos, principalmente quando são usados juntos. Sem contar nas  propriedades anti-inflamatórias que podem fazer toda a diferença. 

Cannabis para dependência química

Embora pareça controverso, estudos já demonstram que alguns canabinoides, como o canabidiol, podem ser úteis contra o vício de várias substâncias, inclusive a maconha

O nosso cérebro funciona com um sistema de recompensa, onde estão concentrados os estímulos de prazer. Estes, por sua vez, são responsáveis por mandar as sensações para o resto do corpo.

As drogas têm a capacidade de causar uma influência gigante nesta área, e o uso contínuo faz o corpo querer cada vez mais, perdendo o interesse em outros prazeres ou funções, como comer.

Quando os canabinoides da cannabis entram no nosso corpo e interagem com os nossos, juntos podem recuperar o equilíbrio, fazendo as coisas voltarem ao normal. Ele vai reduzindo gradativamente a compulsão pelos efeitos químicos, porque auxilia na regularização dos neurotransmissores.

Onde aprenderam a plantar?

Outro ponto em comum entre os dois pacientes, foi o curso de cultivo da Unifesp. Realizado todos os anos, as edições do Curso de Cannabis Medicinal são totalmente gratuitas e ajudam milhares de pessoas.

Antes, o curso era feito na Paróquia São Francisco de Assis, na zona leste de São Paulo do Padre Ticão. O projeto ajudou muitas famílias de pacientes que descobriram um alívio no óleo feito da planta.

Contudo, devido a pandemia, as aulas precisaram acontecer de forma online.. Na última edição, o curso abriu vagas para 15 mil pessoas de uma vez

“Antes do curso eu nem imaginava que poderia ter a possibilidade de ter um Habeas Corpus”, disse Christofoletti.

“Não quero ser um criminoso”

Sem o plantio no Brasil, o óleo de cannabis não fica barato. Mesmo sem levar em conta o frete, o valor de um frasco de 30ml pode variar de R$200,00 a R$3 mil, dependendo da condição tratada. 

Valor inacessível para os dois pacientes. O turismólogo ainda tentou através de associações, mas percebeu que produzir o óleo seria mais vantajoso. “Não queria ser considerado como um criminoso e apenas fazer um tratamento de saúde”, acrescenta. 

Para Wilson Christofoletti  foi a mesma coisa. “Eu fiz o curso, aprendi muito sobre a extração do óleo, e aí eu pensei: por que não?” relata. “É triste entrar na justiça para poder cultivar uma planta”.

Tainara Cavalcante

Jornalista e produtora de conteúdo no Cannalize. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.

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