• 28 de fevereiro de 2021

“Não vim para prender ninguém, vim para salvarem a minha filha”, diz coronel sobre a cannabis medicinal

 “Não vim para prender ninguém, vim para salvarem a minha filha”, diz coronel sobre a cannabis medicinal

Conheça a história do Coronel Moura, que passou boa parte da sua carreira erradicando a maconha e depois de anos, viu na planta a solução para as crises convulsivas da filha.

Israel de Moura Júnior, mais conhecido como Coronel Moura, esteve no exército por 30 anos. Morador do Pernambuco, passou boa parte do seu trabalho erradicando a maconha.

Ele trabalhou tanto em operações de apreensões de tabletes da maconha, quanto na queima de plantações ilegais. “Nós éramos forjados e treinados para combater os traficantes” complementa.

A maconha é a droga mais frequente no Brasil e no mundo. É também a maior droga apreendida todos os dias no país.

São toneladas da erva prensada descoberta pela polícia e o número aumenta ano a ano. De janeiro a agosto de 2020, por exemplo, foram 180 toneladas de cannabis.

Em 2017, por exemplo, a polícia apreendeu o maior número de maconha dos últimos 22 anos. Foram 324 toneladas que geralmente são exportadas de forma ilegal da Bolívia, Colômbia e do Paraguai.

O número é geralmente mais alto que cocaína ou ecstasy todos os anos.

A erva geralmente vem de forma ilegal de países como Bolívia, Paraguai e Colômbia e claro: do Brasil.

Segundo um levantamento feito em 2016 pela Câmara dos Deputados, mais de cem hectares são descobertos todos os anos no país desde a década de 1990.

O lado desconhecido da planta

O Coronel Moura só foi descobrir que a cannabis era remédio, vários anos depois, quando precisou da cannabis para conter as crises epilépticas da filha.

Arquivo pessoal

“Antes, as informações não eram como hoje, não tinha internet. E eu também não tinha uma filha especial e nem motivos para procurar saber (..) Hoje eu sou um pai altamente esclarecido” acrescenta.

O militar, que está na reserva há três anos, ainda não é a favor do uso recreativo, mas ele e a sua mulher defendem o uso medicinal com todas as forças.

Uma criança especial

A mãe da Gabrielle, Dayanne ficou grávida em 2012, durante a epidemia de zika vírus. Na época, a família acreditou que fosse dengue.

 Foi durante um ultrassom morfológico feito no sétimo mês que os pais descobriram que havia um pequeno problema no crânio da menina.

Os pais buscaram entender melhor sobre isso. Dayanne baixou teses e apresentou ao marido. Eles levantaram a hipótese que poderia ser Síndrome de Dandy Walker, caracterizada por uma má formação cerebral.

O casal levou a suspeita para a obstetra, que depois de fazer exames, comprovou que o feto tinha a condição.

Os pais descobriram que a filha era microcefálica também, mas não relacionaram ao zika vírus. A descoberta dessa relação, só foi demonstrada em 2015.

A pequena Gabrielle pode ter sido um dos primeiros casos.

“A médica já veio me perguntar quando marcaríamos o aborto, mas eu disse que estava lá para marcar o parto”, complementa.

Gabrielle, hoje com sete anos, nasceu abaixo do peso, e a médica pensou que ela não iria sobreviver as primeiras 24 horas.

Ainda mais porque a criança não foi para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), mas para o quarto, junto com a mãe.

“Eu lembro que a médica chegou no quarto e perguntou: ‘ela ainda tá viva?’”

arquivo pessoal

Crises convulsivas

Dayane pretendia cursar direito, depois do nascimento da filha, teve que mudar radicalmente os seus planos.

No sexto mês de vida, Gabrielle começou a ter convulsões, decorrentes da microcefalia. Devido a má formação do cérebro, é comum crianças com a condição desenvolverem crises.

Ela pode ocorrer em até 50% dos casos de qualquer tipo de microcefalia. Principalmente nos primeiros anos de vida, segundo a neuropediatra Ana Carolina Coan ao portal da BBC Brasil.

Foi aí que começaram a introdução dos remédios, como depakene e depakote, mas a pequena Gabrielle continuava ter crises convulsivas.

Os remédios controlados são fortes, causam uma série de efeitos colaterais e podem até induzir ao coma.

Gabrielle usou 4 tipos de medicações ao mesmo tempo. A mãe conta que o seu corpo era bem molinho, mal conseguia manter a cabeça no lugar.  

Por isso, mais uma vez, Dayane e o Coronel Moura foram buscar entender mais sobre o assunto e quem sabe até uma solução mais segura.

Foi Dayanne quem descobriu que a cannabis poderia ser eficaz. Ela buscou vários estudos científicos para poder falar sobre isso com o marido.

“Ele tem a mente aberta, mas eu não podia simplesmente chegar e falar que tinha um óleo de maconha para dar para a nossa filha. Fui buscar evidências científicas, resultados para poder mostrar. Até para saber se aquilo realmente funcionava ou valia o risco.” acrescentou Dayanne.

O Coronel Moura diz que ficou surpreso, mas não cético. Ele sabia que a mulher não iria sugerir a cannabis se não tivesse certeza. “Eu sempre acreditei que Deus colocou a cura de tudo na natureza” complementou o Coronel Moura.

“Tudo o que a gente fez, desde o começo, foi muito pautado nas evidências científicas. (…)Por isso, depois que eu falei, ele já foi pesquisando onde comprar” afirmou a esposa.

Comprando o óleo de cannabis

A família foi a vários neurologistas, mas todos eram resistentes quanto a medicar a cannabis.

Ao contrário do que muitos pensam, a cannabis medicinal é legal no Brasil, mas só pode ser vendia com receita médica e também se for o último caso.

Foi conversando com o neuropediatra Ronaldo Beltrão e mostrando os vários estudos científicos sobre a planta, que os pais conseguiram convencê-lo a receitar a cannabis.

O médico, aberto a sugestão dos pais, demorou uma semana para dar a resposta, pois queria entender melhor sobre a cannabis medicinal.

Gabrielle foi a primeira paciente que ele prescreveu. Depois dos resultados, o médico passou a indicar para outros pacientes também.

No Brasil, só há um remédio à base de canabidiol nas farmácias, ele foi aprovado em março deste ano (2020). No entanto, o fitofármaco custa dois salários mínimos.

Uma opção mais barata (mas nem tanto assim), é a importação. Porém ela segue uma série de requisitos, como autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e declaração de responsabilidade.

Leia mais sobre a importação de remédios aqui.

Na época, antes da aprovação do remédio brasileiro, o Coronel Moura queria comprar o remédio no Brasil.

Foi aí que eles descobriram que a Abrace vendia o óleo. “Descobrimos que tem um pessoal aqui na Paraíba, há uma hora da minha casa”, complementa o Coronel Moura.

Eles procuraram a associação e contaram a sua história. A Abrace foi a primeira entidade a receber o aval judicial para o plantio de cannabis no Brasil.

Há várias associações canábicas no Brasil que também plantam, mas de forma irregular. Recentemente, uma lei foi aprovada no Rio de Janeiro que autorizou centros de pesquisas e entidades a plantar cannabis.

Isso influenciou na decisão de plantio da APEPI, que agora, também tem o direito de plantar e pretende cultivar até 10 mil mudas.

Conhecendo a Abrace

Dayanne e o Coronel foram até a Abrace e pediram para conhecer tudo, desde o plantio até o método de extração. Eles queriam se certificar que o fitofármaco que dariam a sua filha fosse seguro.

“Eu lembro que eu cheguei na estufa e falei ‘Oi, boa tarde, eu sou o Coronel Moura da Polícia’. Os cultivadores se entreolharam e tremeram de medo! Então eu falei ‘eu não vim aqui para prender ninguém, vim para vocês salvarem a minha filha’.” recordou.

Depois do episódio, o casal fez amizade com todos da associação. Quando ele viu que a cannabis ajudou a sua filha, fez questão de dar o depoimento no meio da plantação com Gabrielle no colo.

O vídeo viralizou e a notícia se espalhou nas redes sociais.

Introduzindo a cannabis

Quando se trata de cannabis, não há uma fórmula ou dosagem certa. Cada organismo é único, por isso, precisa de uma dosagem específica.

Alguns com doses maiores de canabidiol (CBD) e outras de tetra-tetraidrocanabinol (THC). E para chegar em uma concentração e dosagem certa, é preciso ir testando.

No caso da Gabrielle não foi diferente. Dayanne conta que foram cerca de 8 meses para ela encontrar a melhor dosagem.

No seu caso, foi o óleo de CBD com uma porcentagem de THC também. Depois que a fórmula correta para a menina foi encontrada no ano passado, Gabrielle não teve mais crises.

Hoje, ela não usa mais nenhum outro remédio, apenas o óleo à base da cannabis. Gabrielle não tem crises convulsivas há mais de um ano.

Arquivo pessoal

Os pais ainda acrescentam que a menina não teve efeitos colaterais ao tratamento alternativo, que geralmente são sonolência, náuseas e até diarreia.

“Tem que haver mais debate para desmistificar, o conhecimento pode matar ou salvar. (…) Precisa esclarecer, a planta pode ser usada sim como terapia. Eu estava do lado de cá e fui para o lado de lá. (…)É preciso falar não só para um tratamento, para dar uma qualidade de vida” ressalta o Coronel Moura.

Para além dos resultados esperados

A cannabis não só reduziu as convulsões, mas também deu uma qualidade de vida melhor para Gabrielle.

A cannabis também abriu o seu apetite, ela começou a engordar e o seus sistema imunológico melhorou.

“Os exames de sangue da minha filha são todos normais. Você já viu exames de uma criança com microcefalia todos normais? os médicos ficam doidos!” complementou o Coronel Moura.

Os pais relatam que hoje a Gabrielle é outra criança. A cannabis ajudou na qualidade do sono, atenção, capacidade cognitiva, psicomotora e também um pouco do seu autismo.

“Me considero uma ativista da cannabis medicinal e pra mim deveria ser uma das primeiras opções” ressalta Dayane.

A cannabis trabalha através do Sistema Endocanabinóide, que é encontrado em todos os mamíferos. Este sistema ajuda a regular diversas funções do nosso organismo a nível celular, como fome, humor, imunidade e sistema nervoso.

Ele trabalha através de receptores, que sinalizam quando algo não vai bem. São os canabinóides, produzidos pelo próprio organismo, que ajudam a equilibrar as coisas novamente.

Se uma pessoa está com febre, por exemplo, é o sistema que ajuda a reequilibrar a temperatura corporal.

A cannabis também possui canabinóides, que no nosso organismo, funcionam de maneira bem parecida com os nossos.

O canabidiol e o THC, por exemplo, são tipos de canabinóides.

É possível encontrar receptores para eles no cérebro também. Por isso, a cannabis não trata o sintoma, mas vai na raiz do problema.

Os canabinóides agem diretamente no corpo e no Sistema Nervoso Central (SNC) modulando as funções neurológicas.

O CBD, por exemplo, é capaz de controlar as descargas dos neurotransmissores, o que consequentemente pode reduzir tanto a intensidade das crises como a frequências delas.

Há casos de pacientes que relatam uma melhora já nos primeiros meses, com uma redução cada vez menor de convulsões.

“Hoje a minha filha melhorou bastante, é outra criança. Os médicos que a conheceram antes, se surpreenderam quando a viram. (…)Ela também era passiva, aceitava tudo o que a gente falava, hoje tem opinião própria. Está mais durinha, senta sozinha, olha para você e ri. É uma criança completamente diferente” completou Dayane.

Arquivo pessoal

Mudando de profissão

Dayane é formada em administração, nunca se viu na área da saúde. Foi depois que descobriu que a sua filha é especial e vendo toda a evolução da menina, se apaixonou pela saúde.

Hoje, ela está no último ano de fisioterapia.

O mundo da saúde entrou de vez na vida de Dayane. Ela começou a ler vários artigos sobre o assunto, tudo o que a filha tinha, ela procura saber.

“Quando eu vou ao médico, já até falou o que a minha filha pode ter. O médico até me pergunta qual é o papel dele nisso tudo!” brinca a mãe.

Depois de ver uma máquina medindo os parâmetros no cérebro da filha, não pensou duas vezes em se matricular em um curso de neurociência. Ela ficou fascinada pela área.

Mães de vários lugares também a procuram para falar sobre cannabis. “Uma vez uma mãe me ligou no consultório, para que eu falasse com o seu médico sobre a cannabis medicinal. Acabou que ele receitou mesmo!” lembra a mãe. 

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Tainara Cavalcante

Jornalista e produtora de conteúdo no Cannalize. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.

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