• 24 de junho de 2022

Fumar maconha ou consagrar Santa Maria: tem maneira mais ‘correta’ de fumar Cannabis?

 Fumar maconha ou consagrar Santa Maria: tem maneira mais ‘correta’ de fumar Cannabis?

O intento tem um papel importante em nossas atitudes, apesar do resultado da ação carregar muito mais peso do que a intenção. Porém, os motivos que levam uma pessoa a fumar maconha podem ser os mais variados: uso adulto, terapêutico, religioso, espiritual e de autoconhecimento são apenas algumas das “modalidades” de uso da planta. Entre as de uso religioso/ritualístico está a consagração da Santa Maria, que vem com o intuito de expandir a consciência e criar conexões espirituais.

Para quem não sabe, Santa Maria é o nome dado à maconha em uma linha do Santo Daime difundida pelo Padrinho Sebastião, um dos representantes da doutrina, conhecida por fazer o uso ritualístico do chá do Santo Daime, também conhecido como ayahuasca.

Mas, será que existe diferença entre fumar maconha num “contexto social” e consagrar Santa Maria de forma ritualística? Tem gente achando que o uso ritualístico é mais legítimo do que o uso adulto. Será?

Eu diria que melhor não é a bem a palavra, porém há algumas ‘vantagens’, mas não ligadas ao tipo de uso e sim ao processo. É evidente a potência da conexão que se estabelece com a planta quando a Cannabis é colocada em um lugar de sacramento. E por ser sagrada, precisa ser tratada como tal.

Essa diferença começa com a preocupação em relação à qualidade e pureza do que está sendo consumido. Apesar de nos últimos anos ter aumentado o autocultivo e também o cuidado com a qualidade da Cannabis usada de forma geral, quem faz o tal uso “recreativo”, muitas vezes, tende a se preocupar menos com a origem do fumo por diversos motivos. A maior parte da maconha consumida no Brasil é prensada, que deixa a qualidade no chão e a procedência uma incógnita, além de colocar a saúde em risco.

Mas isso não se deve apenas ao gosto pessoal. A mão pesada do proibicionismo fomenta o tráfico, faz prevalecer a venda irregular e sem fiscalização e limita o acesso à informação de qualidade.

Portanto, o autocultivo pode ser enquadrado numa lista de privilégios e/ou oportunidades ainda para poucos, mesmo que de forma ilegal. Seja pelo risco envolvido, pela falta de estrutura, pela falta de informação, pela falta de grana e tantos outros motivos, tornando o acesso a plantas de qualidade ainda muito restrito.

O que noto no meio canábico hoje é que quem decide colocar a consagração como intento primário do uso tende a criar uma relação mais próxima com a planta, desde os cuidados com o plantio em geral, passando pelos processos ritualísticos ainda durante o cultivo, como cantos e rezas, até a consagração. Mesmo quem não planta, procura sempre por ervas de mais qualidade.

Não podemos comprovar cientificamente que uma Cannabis cultivada na base do rezo tem potencial terapêutico ou espiritual mais elevado, porém, é de se considerar que esse cuidado com a planta pode impactar na qualidade do produto, melhorando a experiência e os efeitos terapêuticos.

E isso também pode ser observado nas pessoas jardineiras que criam um laço afetivo com a Cannabis que vai além do consumo. Quem decide plantar, mesmo que não seja para uso religioso, precisa se dedicar, estudar, conhecer os cuidados, escolher as cepas certas para serem plantadas e até aprender a cruzar espécies. E fazem isso com muito respeito à planta para ter em mãos uma maconha com qualidade, seja para tratar uma doença ou só fazer a cabeça.

Não há motivo melhor ou pior para usar Cannabis. Para quem curte, o convite é aprender a se conectar a cada dia mais com a planta a partir, principalmente, da informação e do respeito a todo o potencial terapêutico e expansivo contido nela. Seguimos na luta pela legalização para que todos tenham a chance de acessarem plantas de qualidade seja lá pra qual finalidade.

Panaceia Canábica

Caroline Apple é jornalista, publicitária e idealizadora e apresentadora do projeto Namastreta, onde aborda temas como política, religião, ciência e diretos humanos pelo olhar da espiritualidade e do autoconhecimento. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, Agora SP, R7 e UOL. Foi repórter do Sechat, onde adentrou para o universo da cannabis. Hoje atua como ghostwriter de textos sobre Cannabis Medicinal e gerencia as redes sociais de empresa do ramo. É uma entusiasta da planta e de todo o seu potencial terapêutico, além de acreditar no cânhamo como o futuro da indústria como uma forma de aliviar o planeta de processos insustentáveis, como o uso do petróleo.

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