Novos modelos regulatórios priorizam produtos padronizados, enquanto a flor continua relevante em mercados europeus já consolidados

Europa restringe flores e amplia foco em cannabis padronizada
A cannabis medicinal está avançando na Europa por caminhos diferentes. Enquanto Alemanha e Reino Unido mantêm forte presença da flor seca, países como Espanha e França estruturam seus mercados com maior foco em extratos, soluções orais e produtos padronizados.
O Business of Cannabis identificou esse movimento ao analisar a evolução dos mercados europeus. A publicação aponta uma diferença entre países que já possuem um mercado médico consolidado e aqueles que ainda estruturam suas regras nacionais.
Essa distinção ajuda a entender um ponto importante: a expansão da cannabis medicinal não significa necessariamente ampliar o acesso à flor da mesma forma em todos os países.
Na Espanha, a Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários (AEMPS) estabeleceu uma fórmula magistral tipificada para uma solução oral de cannabis.
A norma define preparações com concentrações específicas de THC ou CBD. Além disso, utiliza triglicerídeos de cadeia média (MCT) como veículo.
Nesse modelo, o farmacêutico prepara o produto de acordo com a prescrição médica.
Portanto, a Espanha aproxima a cannabis medicinal de uma lógica já conhecida na farmácia: concentração definida, dose mensurável e preparação individualizada.
A flor, porém, não desapareceu completamente das regras espanholas. O país permite seu uso em cartuchos selados de uso único, desde que o produto utilize dispositivos médicos certificados.
Assim, o regulador não elimina necessariamente o material vegetal. Em vez disso, controla sua forma de apresentação e administração.
A França segue uma direção semelhante.
O país estruturou seu modelo nacional de cannabis medicinal com regras para produção, autorização, qualidade e segurança dos medicamentos à base de cannabis.
Além disso, a regulamentação francesa não permite a comercialização da flor seca em sua forma bruta para uso medicinal.
O modelo, entretanto, permite o uso de partes floridas em determinados dispositivos. Nesse caso, o produto precisa utilizar cartuchos de dose única, invioláveis e compatíveis com equipamentos específicos.
A escolha tem uma consequência prática: o paciente não recebe simplesmente a flor como produto final. O sistema define como o produto chega ao paciente e como ele deve ser administrado.
A França ainda está implantando esse modelo. Por isso, o país mantém medidas de transição para pacientes que já participavam do programa experimental de cannabis medicinal.
Não. Essa conclusão seria mais ampla do que os dados permitem.
A flor seca continua dominante em alguns dos principais mercados europeus de cannabis medicinal. Segundo dados citados pelo Business of Cannabis, em dezembro de 2025, as flores representavam 77% dos produtos disponíveis no Reino Unido. Na Alemanha, o percentual ultrapassava 90%.
Portanto, existe uma diferença importante entre mercados consolidados e novos modelos regulatórios.
De um lado, Alemanha e Reino Unido mostram que a flor continua tendo espaço entre pacientes de cannabis medicinal.
De outro, Espanha e França mostram que novos sistemas podem priorizar formatos com maior padronização.
Um dos fatores envolve a possibilidade de controlar melhor a dose.
Extratos, óleos e outros produtos padronizados permitem definir a concentração dos canabinoides de maneira mais precisa. Além disso, esses formatos podem facilitar a prescrição e o acompanhamento do tratamento.
O Business of Cannabis também ouviu Juan Martinez, CEO da Curaleaf International. Segundo ele, a flor apresenta desafios maiores para atender determinados padrões farmacêuticos de administração e controle.
Essa avaliação representa a posição de um executivo do setor. Portanto, não deve ser tratada como consenso entre reguladores ou profissionais de saúde.
Existe ainda outro aspecto: a percepção pública.
Em alguns países, a flor continua associada ao uso recreativo da cannabis. Por isso, formatos farmacêuticos podem ajudar os governos a estabelecer uma separação mais clara entre uso medicinal e consumo não médico.
A experiência europeia não segue uma única fórmula.
Alemanha: mantém forte presença da flor no mercado medicinal.
Reino Unido: também apresenta predominância da flor entre os produtos disponíveis.
Espanha e França: estruturam modelos que dão maior espaço para preparações padronizadas e formas controladas de administração.
Assim, a Europa oferece exemplos diferentes de como um país pode organizar o acesso à cannabis medicinal.
A experiência europeia mostra que regular a cannabis medicinal e legalizar o uso adulto são processos diferentes.
Um país pode ampliar o acesso medicinal sem adotar a flor como principal produto. Da mesma forma, pode permitir a utilização da flor dentro de um sistema médico e, ao mesmo tempo, impor regras específicas para concentração, embalagem ou administração.
Essa diferença importa porque o debate público muitas vezes trata “cannabis” como se fosse uma única categoria de produto.
Na prática, não é.
Uma flor seca, um extrato rico em CBD, uma solução oral com concentração definida e um produto administrado por dispositivo médico apresentam características diferentes. Por isso, cada formato também pode receber exigências regulatórias diferentes.
O principal aprendizado não está em escolher entre flor e extratos.
Está em observar qual modelo regulatório cada país pretende construir e quais objetivos esse modelo busca atender.
A Europa mostra que existe espaço para diferentes estratégias. Mercados maduros continuam utilizando a flor, enquanto novos sistemas priorizam produtos que permitem maior padronização e controle.
Para o Brasil, essa experiência oferece um elemento importante para acompanhar enquanto o país discute seus próprios caminhos para a cannabis medicinal: a expansão do acesso não precisa reproduzir um único modelo internacional.
Flor continua relevante na Europa, mas novos mercados estão criando regras diferentes para a cannabis medicinal.
Enquanto Alemanha e Reino Unido mantêm forte participação da flor, Espanha e França adotam sistemas que priorizam produtos padronizados e formas controladas de administração.
A tendência, portanto, não é simplesmente “substituir a flor”. É criar diferentes modelos de acesso de acordo com a estratégia regulatória de cada país.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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