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quem são os médicos que prescrevem cannabis no Brasil?



16/09/2026


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Estudo lista 333 médicos e aponta forte associação entre formação específica e prescrição, predomínio da prática privada e saúde mental entre as principais indicações

A prescrição de produtos derivados de cannabis já aparece em diferentes áreas da prática médica brasileira. Mas quem são os profissionais que estão prescrevendo? E o que influencia essa decisão?

Um estudo publicado em agosto de 2026 na revista Pharmacoepidemiology buscou responder a essas perguntas. A pesquisa ouviu 333 médicos de diferentes regiões do país. Entre eles, 305 (91,6%) disseram prescrever produtos derivados de cannabis.

O levantamento encontrou três elementos que se destacam: a presença de médicos de família, generalistas e psiquiatras entre os prescritores; a predominância da prática privada; e a forte associação entre formação específica e prescrição.

Os resultados ajudam a entender como a cannabis medicinal vem entrando na prática clínica. Mas há uma ressalva importante: a pesquisa utilizou uma amostra de conveniência, recrutada pela internet. Portanto, os dados não permitem estimar quantos médicos brasileiros prescrevem cannabis nem afirmar que o perfil encontrado representa todo o país.

Quem são os médicos que prescrevem cannabis?

Entre os participantes, as especialidades mais frequentes foram Medicina de Família e Comunidade (21,3%), médicos generalistas ou sem especialidade (15,9%) e Psiquiatria (15,0%).

A maior parte dos médicos havia se formado entre 2010 e 2019. Entre os prescritores, 76,1% afirmaram ter recebido formação específica sobre prescrição de produtos derivados de cannabis.

A distribuição regional também chamou atenção. O Sudeste concentrou o maior número absoluto de participantes, mas, na análise ajustada, médicos do Sul e do Nordeste apresentaram maior chance de estar no grupo de prescritores em comparação com os do Sudeste.

Esses números devem ser lidos com cautela. A amostra não foi probabilística e houve desequilíbrio entre prescritores e não prescritores. O estudo também não permite concluir que determinada especialidade ou região, por si só, leve o médico a prescrever.

A prescrição ainda está concentrada na saúde privada?

Os dados sugerem que sim, pelo menos entre os médicos que participaram da pesquisa.

Entre os prescritores, 67,9% atuavam na prática privada. Na análise ajustada, médicos vinculados ao setor público apresentaram menor chance de prescrever do que aqueles da prática privada. O mesmo ocorreu entre profissionais ligados a planos de saúde.

Isso não significa que médicos do SUS não prescrevam cannabis. O resultado mostra apenas uma associação dentro da amostra estudada.

A diferença é relevante porque pode apontar para uma questão de acesso. O próprio estudo relaciona a maior presença da prática privada ao uso de produtos de maior custo, especialmente importados.

No entanto, os pesquisadores não avaliaram diretamente a condição socioeconômica dos pacientes. Por isso, não é possível medir, a partir desse levantamento, o impacto da renda sobre o acesso ao tratamento.

Formação médica aparece como principal fator associado

Entre todas as variáveis analisadas, a formação específica foi a que apresentou a associação mais forte com a prescrição.

Dos médicos que prescreviam cannabis, 76,1% tinham treinamento específico. Entre os não prescritores, a falta de conhecimento ou formação foi o principal motivo relatado: 46,5% citaram essa barreira.

Na análise estatística, a formação apareceu com odds ratio ajustado de 100,73. O número é expressivo, mas não deve ser interpretado como “a formação aumenta em 100 vezes a chance de prescrever”.

O intervalo de confiança foi muito amplo, de 12,77 a 794,72, indicando incerteza considerável. Além disso, o desenho transversal não permite estabelecer uma relação de causa e efeito.

Pode existir também uma relação inversa: médicos que já têm interesse em cannabis podem ser justamente os que procuram cursos e treinamentos. Ainda assim, o resultado reforça um ponto importante do estudo: conhecimento técnico e formação aparecem no centro da decisão de prescrever.

O que os médicos estão prescrevendo?

A pesquisa também investigou a composição dos produtos mencionados pelos médicos.

CBD apareceu isoladamente em 23,6% das menções. Produtos com CBD e THC corresponderam a 19,0%, enquanto o THC apareceu isoladamente em 16,7%.

As diferentes categorias de produtos full spectrum, quando somadas, representaram cerca de 36,1% das menções. Isso inclui formulações full spectrum ricas em CBD, ricas em THC ou com ambos os canabinoides.

Os dados mostram, portanto, uma prática que não se resume ao CBD isolado. Há diversidade de formulações e combinações entre canabinoides.

É importante observar que esses percentuais representam menções de composição nas respostas dos médicos. Não significam que 23,6% dos pacientes receberam CBD, por exemplo, nem representam a participação de cada formulação nas prescrições de todo o Brasil.

A pesquisa também encontrou relatos de uso de produtos importados, nacionais e produzidos por associações de pacientes. Entre as categorias identificadas, 35,4% das menções estavam relacionadas a produtos importados, 14,8% a produtos nacionais e 40,7% a produtos de associações.

Essas categorias não devem ser tratadas como uma fotografia do mercado nacional, já que dependiam da identificação feita nas respostas.

Saúde mental lidera as indicações

Entre as indicações relatadas pelos médicos, os transtornos mentais e comportamentais formaram a maior categoria, com 37,4%. Em seguida vieram doenças do sistema nervoso (31,4%) e sintomas ou sinais clínicos gerais, incluindo dor (16,1%).

Dentro da saúde mental, ansiedade e sintomas ansiosos representaram 12,2% das indicações. Também apareceram transtorno do espectro autista (7,4%), burnout (5,0%) e depressão (5,0%).

No grupo de doenças neurológicas, destacaram-se distúrbios do sono (7,3%), doença de Parkinson (5,7%), Alzheimer (4,9%) e epilepsia (4,0%). A dor crônica representou 11,4% das indicações.

O resultado é relevante porque mostra onde a cannabis está sendo utilizada na prática clínica. Mas frequência de prescrição não é sinônimo de eficácia comprovada.

Os próprios autores destacam que a evidência científica ainda é limitada para algumas condições psiquiátricas, incluindo ansiedade e depressão. Portanto, os dados devem ser interpretados como um retrato da prática relatada pelos médicos, e não como uma recomendação para o uso de cannabis nessas doenças.

O que o estudo revela — e o que não revela

O levantamento ajuda a identificar padrões entre médicos que prescrevem cannabis no Brasil. Formação específica, prática privada e determinadas áreas clínicas aparecem associados à prescrição. A saúde mental e as doenças neurológicas também ocupam espaço importante entre as indicações relatadas.

Mas o estudo não responde a perguntas igualmente importantes. Não é possível calcular a proporção de médicos brasileiros que prescrevem cannabis, quantos pacientes utilizam esses produtos ou qual formulação é mais eficaz para cada condição.

Também não é possível afirmar que a formação causa a prescrição ou que os produtos relatados produzem os resultados esperados.

Como os participantes foram recrutados por conveniência e responderam voluntariamente a um questionário online, existe possibilidade de viés de seleção e de autorrelato.

Além disso, os dados foram coletados entre setembro de 2024 e março de 2025, antes das mudanças regulatórias que entraram em vigor em 2026. O estudo, portanto, funciona principalmente como uma linha de base para entender a prescrição antes desse novo cenário.

Mais do que mostrar quantos médicos prescrevem cannabis, a pesquisa ajuda a revelar quais fatores acompanham essa prática. O destaque dado à formação reforça a necessidade de qualificação médica. Ao mesmo tempo, a concentração na prática privada levanta uma discussão sobre acesso, enquanto a predominância de indicações em saúde mental reforça a importância de aproximar a prática clínica do nível de evidência disponível.

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Lucas Panoni

Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.