• 25 de junho de 2022

De volta ao mundo em 80 dias | O diário de um paciente

 De volta ao mundo em 80 dias | O diário de um paciente

 Um relato de como a maconha muda vidas

Quando Júlio Verne contou a aventura do excêntrico Phileas Fogg e sua aposta de dar a volta ao mundo em 80 dias, falava de uma proposta que na realidade da Inglaterra de 1872 não só era considerada insanidade como também impossível, e a aventura se desenrola com muitas reviravoltas e emoções. 

Hoje, no marco dos 80 dias da minha própria aventura pelo impossível, me peguei pensando nas inúmeras vezes em que a vida me apresentou desafios considerados por muitos impossíveis de vencer. E vejo que me pareço muito com Phileas Fogg na minha teimosia e otimismo, lançando-me em aventuras e desafios que muitos sequer ousariam imaginar. 

Para contextualizar: tenho uma doença genética rara, de caráter progressivo e degenerativo, a deficiência de carnitina-palmitoil transferase do tipo II. Fui diagnosticado aos 14 anos, e os médicos me deram 1 ano de vida… 

Não me conformei, busquei alternativas e segui em frente. Ao longo dos anos a doença foi avançando, causando limitações, dores e sofrimentos indescritíveis. Após anos de muita luta e resistência, em 2018 me vi semi-vegetativo, dependente de cuidados e sem mais nenhuma esperança na medicina convencional, que se mostrava incompetente para tratar tal enfermidade. 

Foi nesse ano que descobri que a maconha, que um dia acreditei ser uma droga terrível, se mostrou na verdade o melhor remédio que eu poderia encontrar. Essa planta foi capaz de me tirar de um estado de profunda debilidade física, reduziu as dores excruciantes e me livrou dos opióides e outras 27 medicações que eu utilizava e que me faziam mais mal que bem. 

Essa descoberta abriu meus olhos para o quanto essa planta – assim como o chá de camomila da vovó – deveria ser amplamente divulgada como uma excelente alternativa aos tratamentos alopáticos convencionais, que muitas vezes são inócuos. 

No entanto, a cannabis ainda carrega o peso de quase dois séculos de preconceitos e de campanhas maciças de difamação e de ocultação das suas reais propriedades. 

Eu venci o preconceito usando boa informação científica como base, e desde então tomei como missão de vida compartilhar o que aprendi e tentar abrir os olhos daqueles que ainda não conhecem o poder dessa planta. Quem sabe consigo assim mudar vidas, como foi possível mudar a minha. 

Vou relatar agora, em resumo, como foram os 80 dias de descobertas quando iniciei um novo protocolo de tratamento com a maconha, vendo então como ela ainda podia me surpreender. 

Antes, um pouco da minha história de tratamento com maconha. No começo o CBD isolado, que não surtiu efeito. Acabei conseguindo melhor resultado no controle das dores com óleos artesanais de alto THC, e alternava entre cepas de THC e CBD para tentar equilibrar os efeitos analgésicos do THC e os efeitos de relaxamento muscular do CBD. 

Consegui muitos avanços. Saí do estado semi-vegetativo, consegui voltar a andar, retomei o movimento de pinça das mãos, meu humor melhorou, as dores abrandaram um pouco. 

Mas, apesar de ter acesso a extrato puro, comigo acontecia (não será assim com todos os pacientes) de alcançar o limite de tolerância do corpo rapidamente, e com isso o efeito terapêutico sofria queda acentuada – a famosa curva do U invertido. E eu retrocedia nos avanços obtidos. 

Então imaginem o cenário: doença neuromuscular incapacitante, dor 24 horas por dia, perda de coordenação motora, incapaz de ficar em pé por mais de 20 minutos. Além disso, a artrite e a artrose tornavam qualquer movimento doloroso. Eu me arrastava pela casa com o uso de um andador e já estava há meses isolado, sem ser capaz de fazer nada no ambiente externo. O sofrimento era constante. 

Prestes a voltar a perder minha capacidade de autocuidado, e com medo de voltar ao estado semi-vegetativo e dependente de ajuda, forcei meu cérebro ao máximo, buscando uma solução para algo que a ciência médica convencional continua a afirmar que não tem cura ou tratamento. 

Realizei um balanço de tudo o que havia tentado desde 2018, todas as mudanças que apliquei na vida na busca do alívio dos sintomas e do sofrimento. Adotei então uma dieta personalizada, reduzimos os alopáticos quase na totalidade e a fisioterapia e psicoterapia eram práticas constantes na luta contra a inevitável progressão da doença.

 Minha mente atípica adora um desafio, uma tarefa “impossível”, e começou a elaborar um conjunto de premissas para uma nova tentativa de protocolo que fosse capaz de aliviar um pouco mais o sofrimento. 

Eu não tinha metas muito ousadas. Os objetivos eram apenas manter minha autonomia, reduzir a dor em pelo menos 15% e voltar a caminhar mais de 100 metros. Maquinei uma ideia de ação e busquei opiniões médicas sobre meu plano. Recebi de ambos a mesma resposta: se subisse muito o CBD reduziria o efeito do THC e sentiria muito mais dor. 

Dias 1 a 5 

Eles estavam certos. Nos primeiros dias da minha experiência usei um óleo 1:1, que tem teores semelhantes de THC e CBD, na concentração de 20%. Foi como desligar todos os efeitos positivos que eu já havia alcançado. 

Senti um aumento na dor e na rigidez muscular, e o movimento coreico (involuntário) se intensificou, me transformando de novo em cosplay de bonecão de posto. Mesmo assim insisti nesta combinação, até o momento em que, depois de 4 dias, não aguentando mais a dor, me peguei pensando naquele frasco de morfina que tenho guardado num cofrinho para emergências… 

Dias 6 a 20

 Determinado a descobrir uma nova forma de uso da terapêutica canábica, passei a usar extrato puro de CBD em altas doses e retomei o óleo de alto THC a 20%, obtendo assim uma melhora discreta na dor e nos demais sintomas. 

Seguimos aplicando esse esquema, até que no 10º dia dessa combinação eu acordei sem dor, pela primeira vez em muitos anos. Normalmente meu despertador era a dor que vinha ao fim dos efeitos do óleo rico em THC – que para mim duravam cerca de 6 horas. 

Fiquei meio incrédulo, sem saber se estava vivo de fato. Não tinha dor, não havia contraturas musculares, sentia meu corpo leve. A prática diária de alongamentos ainda na cama foi muito mais fácil naquele dia. Então percebi que estava no caminho certo e persisti em minha jornada. 

Dia 21 

Cada dia é melhor que o anterior no aspecto físico. Começo a notar a redução das atrofias, ganho de tônus muscular, redução das dores . Já não apresento movimentos coreicos há 4 dias. Estou iniciando o desmame do único alopático que ainda uso. 

O único problema que venho tendo é uma profunda depressão, que já notei desde os primeiros dias de mudança no tratamento e que segue muito intensa. Especulo que seja em função da queda na produção de anandamida, já que as doses de THC foram muito reduzidas. 

Dia 28 

Troquei o andador pela bengala dentro de casa, mas por enquanto não tive coragem de sair. Minhas pernas, apesar de mostrarem redução da atrofia, ainda estão fracas. A coordenação motora melhorou, voltei a usar garfo e copos de vidro, já que não há mais movimento coreico (mesmo com a redução do baclofeno a 50% da dose). 

A depressão continua forte. Apesar da melhora física impressionante, não consigo sentir alegria genuína pelo progresso. 

Dia 40 

A melhora física segue persistente, com redução das dores, reversão da atrofia, ganho de tônus e mobilidade voltando ao normal. A coordenação motora parece estar progredindo, embora mais lenta que outros parâmetros. Ainda tenho um tremor de fim de movimento. 

Faz alguns dias que o baclofeno foi totalmente retirado, e o movimento coreico não retornou. Consegui participar de várias reuniões no mesmo dia, um feito incrível considerando que poucos dias atrás ficar 30 minutos sentado era garantia de dores excruciantes. 

Estou convencido de que a depressão persistente tem origem química, em função da baixa anandamida. Contudo, estou preocupado porque ela não mostra sinais de melhora. Coloquei todos os remédios potencialmente fatais, bisturís e qualquer instrumento que possa ser usado para “fazer bobagem” no cofre e joguei a chave fora. 

Dia 50 

Já não uso a bengala dentro de casa. A Marrom, minha cannis infernallis, está muito feliz porque agora eu consigo jogar a bolinha para ela sem quase morrer depois. 

A dor vem de tempos em tempos, sempre depois de algum esforço muscular. Noto muitas fasciculações após exercícios, que tenho contrabalançado usando ora doses de alto CBD ora alto THC, conforme a necessidade, sempre ouvindo o que o corpo pede. 

A depressão ainda está aqui, porém já começo a notar uma ligeira melhora. Até respondi algumas mensagens no whatsapp, que estavam lá praticamente desde o início do novo protocolo, quando me isolei de tudo e todos. 

Dia 64

 Minha melhora física é impressionante. O fisioterapeuta demorou a acreditar quando me viu caminhando com desenvoltura. A atrofia das pernas reduziu em uma década, e começou a evidenciar que a maconha torna possível não apenas frear a progressão da doença como reverter alguns dos problemas causados por ela. 

A depressão começa a ficar mais amena, já não evito qualquer contato com as pessoas. O humor está voltando ao normal. Cada dia é um pouco melhor que o anterior. Estou animado com as possibilidades que essa melhora vai possibilitar.

 Agora me pego sonhando com os próximos passos na luta pela descriminalização da maconha – afinal, seria muito egoísmo não dividir esse conhecimento. 

Dia 72 

As avaliações de dois fisioterapeutas e dois médicos corroboram minhas descobertas. Todos os profissionais estão impactados com o resultado dessa aventura audaciosa. 

E os desafios não param. Analisando meu diário, percebo que não há linearidade nas dosagens. Estou entrando com CBD, THC ou ambos em momentos diferentes do dia, na dose necessária em cada momento. 

Faço uma leitura muito personalizada dos sintomas, e já tenho um entendimento de como usar cada um dos remédios, que veio por meio de um longo autoconhecimento e do método que aprendi com a Olhar Verde. Aliás, é importante lembrar que fui acompanhado por médicos, terapeutas canábicos e outros profissionais durante todo o processo. 

Dia 80

 Estou convencido de que o esquema atual de tratamento é o que alcançou melhores resultados nestes 30 anos de combate a uma doença incapacitante. Espero que essas descobertas possam ser estudadas, replicadas e comprovadas nas nossas universidades, e que pacientes com doenças raras e incapacitantes – como, por exemplo, parkinson, esclerose múltipla, ELA e outras – possam um dia se beneficiar delas. 

A depressão começou a se dissipar não faz muitos dias. O ânimo vem melhorando, já consigo vibrar com cada conquista, por mais singela que pareça. Além de conseguir amarrar meus cadarços, fui capaz de bolar um beck usando as mãos, o que significa que recuperei a coordenação motora fina, depois de mais de 10 anos. 

Lembram da meta inicial caminhar mais de 100 metros? Pois então… eu e a Marrom caminhamos 1000 metros! Claro que eu de bengala, mas ainda assim estou empolgado com esse resultado – e com o fato de tal esforço não ter provocado uma crise de dor como era comum antes. 

Nesse importante marco percebo que dei a minha volta ao mundo em 80 dias, e estou cheio de esperança.

 E de vontade de lutar para que essa realidade seja acessível a mais pessoas,afinal maconha é remédio, e todo o uso é terapêutico. 

Quanto à depressão, está ficando para trás. Agora com a ajuda do Psilocybe Cubensis.

Mas isso é uma outra aventura que conto pra vocês mais adiante.

Já contamos a história do Augusto Saraiva aqui, veja.

Augusto Saraiva

Augusto Saraiva - Ativista e paciente de doença Neurodegenerativa progressiva, (Deficiência de CPT2) Autista de alto funcionamento com super dotação. Pai da Carolina e da Marrom, membro fundador de associação de pacientes e conselheiro da clínica Olhar Verde. Transformou em missão de vida levar a informação de qualidade sobre o uso medicinal da maconha e defende o acesso democrático e a maconha na farmácia viva do SUS, tem autorização para cultivo e extração.

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