Conheça os caminhos de Lígia Spedaletti, da medicina chinesa à pesquisa com cannabis medicinal e à atuação na Associação Flor da Vida.

Quem vê a massoterapeuta Lígia Spedaletti nas redes sociais mostrando sua rotina com eventos, medicina chinesa, massoterapia e convivência com Eduardo Suplicy talvez não imagine a volta que a vida dela deu até chegar ali.
Antes de trabalhar com cannabis medicinal, Lígia estudou linguística, viajou para a China e para a California, experimentou o luto de forma intensa e sentiu os efeitos da terapia canabinoide na pele – literalmente.
Com tanta experiência acumulada, o destino a presenteou com a vivência necessária para hoje atuar como coordenadora de eventos na Associação Flor da Vida, e ter contato direto com uma das figuras mais carismáticas do ativismo pelo acesso medicinal à cannabis.
Para Ligia, viajar para a China era como um tiro no escuro. A ideia do intercâmbio de um mês em Hangzhou e Pequim tinha o intuito de se destacar na carreira de linguista, mas, chegando lá, Lígia descobriu que seu forte mesmo não seria o mandarim, mas a medicina tradicional chinesa.

Ligia Spedaletti durante o intercâmbio na China
“Quando eu entrei em contato com a medicina chinesa, vi que ela une coisas que fazem muito sentido para mim: o quanto o nosso corpo expressa aquilo que muitas vezes a gente, a nossa mente, não consegue entender.”
E ela continua:
“Eu achei isso incrível, porque sentia que meu corpo sempre me dava muitos sinais e me mostrava como eu estava me sentindo, mesmo sem que eu soubesse explicar, e eu tentava interpretar isso.”
Em Hangzhou, uma cidade menor e mais tradicional do que Pequim, Lígia teve contato mais próximo com uma cultura em que a medicina tradicional chinesa fazia parte da vida cotidiana. A experiência foi suficiente para fazê-la voltar ao Brasil com uma nova pergunta: e se aquele universo pudesse fazer parte de sua própria trajetória profissional?
“Quando eu voltei pro Brasil dessa viagem, eu pensei: tenho que ir atrás disso também, mesmo não sabendo muito bem onde vai me levar”
Ela procurou então um curso de naturopatia e massoterapia em São Paulo, cuja formação em massagem tinha como base a medicina tradicional chinesa. A ideia inicial era compreender melhor aquilo que havia conhecido na China. Mas, no caminho, uma das técnicas acabou ganhando espaço.
“Não imaginava que iria para essa área. Eu fiz o curso talvez com uma intenção de trabalhar mais com outros tipos de terapias. Mas a massagem me pegou muito, assim, essa possibilidade de você tocar em pontos do corpo e você conseguir realmente ver um benefício na pessoa ali ao longo do tempo.”
Enquanto concluía a formação em Linguística e o curso de naturopatia e massoterapia, Lígia começou a atender em Campinas. A massagem, que inicialmente era apenas uma possibilidade entre outras, começava a se transformar em profissão.
Mas ainda faltava uma peça para que a cannabis entrasse nessa história.
O contato de Lígia com a cannabis não começou como uma descoberta profissional. Ela já havia experimentado a planta durante a faculdade e percebia efeitos que considerava benéficos, mas nunca havia se dedicado a estudar o assunto.
A mudança veio durante uma viagem à Califórnia para visitar uma tia que enfrentava um câncer agressivo, já em estágio de metástase.

Ligia e sua tia, que também era uma grande amiga. Foto: arquivo pessoal
A doença havia voltado e ela fazia quimioterapia para tentar retardar os sintomas. A conversa entre as duas não era simples. Lígia sabia que estava diante de alguém que poderia morrer e perguntou como ela lidava com isso.
A resposta da tia ficou marcada:
“Ela falou que ela só tinha medo de sentir dor, que ela não queria sentir dor. Que ela não tinha medo do que ia acontecer, mas ela não queria sofrer.”
Foi nesse contexto que Lígia descobriu que a tia fazia tratamento com cannabis. Na Califórnia, ela tinha autorização para utilizar cannabis medicinal e mantinha diferentes formas de uso.
No primeiro dia da visita, a tia precisava repor seus produtos e convidou Lígia para acompanhá-la a um dispensário. Era a primeira vez que ela entrava em um estabelecimento daquele tipo.
A experiência abriu uma janela para um universo que até então conhecia apenas superficialmente. A tia utilizava óleo, gomas e produtos de uso tópico. E Lígia também teve uma experiência inesperada com uma dessas formas de aplicação.

Em determinado momento, durante a viagem, começou a sentir uma dor muito intensa. Os médicos haviam considerado que se tratava de uma dor muscular, mas ela percebia que havia algo diferente.
“Eu sei que a gente já foi no médico, eu sei que eles já falaram que é uma dor muscular, mas tá acontecendo alguma coisa comigo. Tipo, não está normal essa dor.”
A experiência com a cannabis fez com que ela prestasse ainda mais atenção ao próprio corpo.
“Foi por conta da maconha mesmo que eu percebi, que eu senti no meu corpo, que algo não estava legal”
Lígia não atribui à cannabis a descoberta da doença. O que ela relata é que a experiência ajudou a perceber que aquela dor não era normal e a insistir na investigação médica.
“Eu acho que se eu não tivesse tomado essa gummy e percebido no meu corpo que era tão sério, eu não teria insistido tanto em ir de novo no médico até alguém descobrir o que que era.”
A dor, segundo ela, foi a mais forte que já sentiu.
“Acho que a dor mais forte que eu já senti na minha vida, inclusive, foi essa. Foi horrível, horrível mesmo.”
A experiência também retomava algo que havia aprendido anos antes com a medicina chinesa: a atenção aos sinais do corpo.
“Meu corpo fala pra mim: olha, você tem que prestar mais atenção nisso”
Para Lígia, aquele episódio acabou funcionando como um ponto de inflexão. A cannabis deixou de ser apenas uma experiência pessoal e passou a despertar uma curiosidade que ela queria compreender melhor.
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Quando voltou da Califórnia, Lígia começou a estudar mais sobre cannabis. A experiência com a própria dor se somava ao que havia observado na tia, que utilizava cannabis durante o tratamento de um câncer avançado.
“Foi muito louco assim, tanto essa experiência que eu tive com essa coisa da herpes-zóster, tanto do óleo quanto da gummy e ver ela melhorando, mesmo tendo esse câncer terminal e tal. Eu comecei a estudar sobre.”
Ela fez um curso sobre cannabis medicinal ligado à Unifesp e, ao mesmo tempo, continuava sua formação em naturopatia e massoterapia.

O espaço onde Ligia estudava massoterapia com cannabis, em Campinas
Era uma fase de muitas dúvidas. Lígia estava terminando a faculdade de Linguística, concluindo o curso de naturopatia e massoterapia e tentando decidir qual caminho seguir.
Mas uma coisa já estava clara: ela queria entender se havia alguma conexão entre aquilo que estava aprendendo sobre cannabis e a profissão que começava a exercer.
A pergunta acabou virando tema de pesquisa.
“Quando chegou no momento do TCC, eu falei assim: cara, será que existe alguma coisa que estude a cannabis em tratamento de massagem? Porque eu já trabalhava com massagem e estava com esse interesse por cannabis.”
A resposta inicial foi frustrante. Ela procurou estudos e informações sobre o assunto, mas encontrou pouco material.
“Eu comecei a pesquisar e não tinha nada, tipo, eu não achava pesquisa, eu não achava muita informação sobre.”
A escassez de estudos não fez a pergunta desaparecer. Pelo contrário. Lígia decidiu transformá-la em um projeto para avaliar os efeitos da cannabis de uso tópico associado à massoterapia.
A ideia chamou a atenção durante o curso e recebeu um incentivo para ser colocada em prática. Foi nesse momento que a pesquisa começou a deixar de ser apenas uma curiosidade acadêmica.
O projeto levou Lígia até a Associação Flor da Vida. A associação ajudou na produção do creme utilizado no estudo e passou a acompanhar o trabalho.

O experimento comparava diferentes grupos de participantes, com sessões de massagem baseadas na medicina tradicional chinesa. Alguns recebiam o creme com cannabis; outros utilizavam um placebo; havia ainda um grupo que alternava entre as duas opções. Nem Lígia nem os participantes sabiam inicialmente qual produto estava sendo utilizado.
Ao final das sessões, Lígia observou diferenças entre os grupos. Segundo seu relato, o grupo que utilizou cannabis em todas as sessões apresentou a melhor evolução, enquanto o grupo que não utilizou cannabis ficou em segundo lugar. O grupo que alternou entre os dois produtos teve o pior resultado.
Como se tratava de uma pesquisa inicial, esses resultados não foram suficientes para estabelecer uma conclusão clínica. Mas foram importantes para Lígia por outro motivo: deram uma dimensão prática à pergunta que ela havia começado a fazer sozinha.
Ela terminou o projeto, escreveu um artigo e apresentou os resultados à Flor da Vida.
A resposta da associação abriu uma nova etapa. Em vez de terminar com a entrega de um trabalho acadêmico, a pesquisa acabou levando Lígia para dentro da associação.
“Eles me chamaram para trabalhar lá.”
Foi em Franca que ela passou a atender no núcleo de terapias da Flor da Vida. Durante cerca de dois anos e meio, realizou atendimentos gratuitos e entrou em contato com pessoas com diferentes diagnósticos e necessidades.
Mães de crianças autistas, pessoas com fibromialgia, ansiedade e depressão passaram a fazer parte de sua rotina. A experiência também ampliou sua percepção sobre as diferentes formas de utilização da cannabis.

“A gente tem muito a ser explorado ainda, eu acho. Os estudos vão aumentar cada vez mais porque a gente está no caminho.”
Para Lígia, existe uma relação entre a produção científica e aquilo que pacientes e profissionais observam na prática.
“Foram tantos anos de estigmatização, de preconceito, de a gente se afastar disso, que agora que cada vez mais estudos surgem. Por quê? Porque mais pessoas estão observando na pele, na vivência, na prática.”
E foi justamente essa combinação de pesquisa, experiência e prática que acabou levando Lígia até Eduardo Suplicy.
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A aproximação com Suplicy aconteceu durante um momento de expansão da atuação da Flor da Vida em São Paulo. O político já havia visitado a associação e demonstrava interesse tanto em seu próprio tratamento quanto em ampliar a discussão sobre o acesso à cannabis medicinal.

Lígia acompanhou esse movimento e acabou se mudando para São Paulo com parte da equipe da associação.
A massoterapia voltou a ocupar um espaço importante nessa trajetória.
Hoje, ela atende Suplicy e combina a massoterapia baseada na medicina chinesa com outras técnicas, incluindo práticas voltadas ao equilíbrio físico e emocional. Segundo Lígia, o contexto do tratamento de um câncer também fazia com que as sessões tivessem uma dimensão de cuidado emocional.
“Foi um momento muito difícil para ele que a massagem entrou também com esse equilíbrio emocional mesmo, assim que era um momento que ele conseguia descansar, se reequilibrar.”
É nesse ponto que aquela sequência aparentemente improvável — Linguística, China, medicina chinesa, massoterapia, cannabis, pesquisa e associação — desemboca numa imagem marcante: Lígia aplicando um creme de cannabis durante uma sessão com Suplicy.

Mas, para ela, o trabalho atual não se resume ao atendimento.
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Hoje, Lígia está mais envolvida com a produção de eventos da Flor da Vida, incluindo a criação da Expo ABC. Ela ainda atende Suplicy, mas a atuação nos eventos ocupa uma parcela maior de sua rotina.

A mudança de função, porém, não significa que tenha se afastado daquilo que a levou até ali.
Pelo contrário.
“Minha missão é lutar pelo acesso, pela democratização do acesso, tanto pelas possibilidades que eu vi e vivi, quanto pelas que a gente ainda está abrindo portas para que aconteçam.”
A experiência pessoal, a pesquisa e os anos de contato com pacientes passaram a formar uma mesma trajetória.
“Eu vejo isso também, trabalhando com evento, produzindo evento. Mas não é com um olhar de produção de evento, é com um olhar da luta pela maconha por conta de toda a trajetória que eu passei.”
E talvez seja essa a melhor forma de entender como aquela massoterapeuta chegou até a cena que parecia tão improvável no começo.
“Eu sinto que cada coisa que eu vivi é importante para lutar pela legalização da forma com que a associação luta hoje, da forma com que eu luto hoje.”
A história de Lígia, portanto, não é exatamente sobre alguém que encontrou um caminho e decidiu segui-lo. É sobre alguém que foi descobrindo esse caminho enquanto caminhava — uma experiência levando à outra, até que a curiosidade virou pesquisa, a pesquisa virou prática e a prática virou uma causa.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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