Avaliação do mercado de cannabis encontrou mudanças na oferta e nos preços, mas ainda não encontrou mudança sobre o mercado ilegal

Mesmo com regulação, mercado ilegal persiste na Holanda
A primeira avaliação do experimento holandês de cadeia regulada de cannabis mostra que o mercado ilegal continua existindo mesmo após a introdução da oferta regulamentada. Ao mesmo tempo, o estudo identificou mudanças na variedade de produtos, nos preços e nas preferências dos consumidores.
Os resultados fazem parte da primeira medição de acompanhamento do experimento, conduzida pelo Trimbos Institute, Breuer&Intraval e RAND Europe, a pedido do governo holandês. A análise compara dez municípios participantes da iniciativa com outros dez municípios usados como grupo de comparação.
A coleta de dados ocorreu principalmente entre setembro de 2025 e março de 2026. Como essa é apenas a primeira de quatro medições anuais, os pesquisadores ressaltam que ainda não é possível tirar conclusões definitivas sobre os efeitos de longo prazo da regulação.
O experimento foi criado para testar se seria possível controlar a produção, a distribuição e a venda de cannabis, mantendo os produtos dentro de uma cadeia regulamentada.
Na Holanda, a venda de cannabis nos chamados coffeeshops já era tolerada sob determinadas condições. O cultivo e o fornecimento para esses estabelecimentos, porém, continuavam ilegais. O experimento procura justamente substituir essa estrutura por uma cadeia fechada, formada por produtores licenciados, distribuidores e coffeeshops participantes.
Uma das principais mudanças observadas foi o aumento da variedade disponível nos estabelecimentos dos municípios participantes.
Os coffeeshops passaram a oferecer mais tipos de flores, haxixe e cigarros pré-rolados. Também surgiram produtos como comestíveis, vapes e concentrados.
O aumento da oferta, porém, veio acompanhado de uma preocupação: alguns dos novos produtos apresentavam concentrações elevadas de THC, segundo as informações disponíveis nas próprias listas dos estabelecimentos. O estudo registra que municípios e organizações de prevenção demonstraram preocupação com essa característica da nova oferta.
Os preços também apresentaram comportamentos diferentes entre os produtos.
A média dos preços da flor caiu nos municípios participantes, com destaque para a nederwiet, variedade produzida nos Países Baixos. Já o preço médio do haxixe aumentou mais nesses municípios do que nos municípios de comparação.
Os pesquisadores relacionam parte desse resultado à disponibilidade ainda limitada de haxixe regulado durante a fase inicial do experimento.
A diferença é relevante porque mostra que criar uma oferta regulada não significa necessariamente que todos os produtos estarão disponíveis nas mesmas condições.
Durante a implementação, os coffeeshops relataram dificuldades relacionadas à quantidade e à variedade de alguns produtos, especialmente haxixe. A própria regra de fiscalização da venda obrigatória de haxixe regulado só entrou em vigor em setembro de 2025.
Apesar das mudanças na oferta, a primeira medição não encontrou diferenças claras entre os municípios participantes e os de comparação em relação à frequência de uso de cannabis.
Também não foram identificadas diferenças relevantes no número de dias de consumo por mês ou na quantidade de cigarros consumidos por dia de uso.
O número e a frequência de visitas aos coffeeshops também permaneceram estáveis.
Houve, entretanto, algumas mudanças no comportamento dos consumidores.
Nos municípios participantes, aumentou a proporção de pessoas que disseram preferir principalmente flor em vez de haxixe ou dos dois produtos. Também houve avaliação mais positiva da relação entre preço e qualidade da flor.
Os pesquisadores, porém, afirmam que ainda não é possível determinar claramente o significado dessas mudanças.
A introdução da cadeia regulada não eliminou a compra de cannabis fora dos coffeeshops.
Consumidores que continuam recorrendo ao mercado ilegal apontaram como principais motivos o preço mais baixo, uma relação preço-qualidade considerada atrativa e a possibilidade de comprar quantidades maiores.
Os principais canais identificados foram serviços de entrega e vendedores que entram em contato com consumidores por telefone ou aplicativos de mensagens.
O estudo também registrou aumento na quantidade de haxixe comprada por transação ilegal nos municípios participantes.
Uma possível explicação é justamente a oferta limitada de haxixe regulado durante a primeira fase do experimento. Os pesquisadores, contudo, não apresentam esse fator como uma conclusão definitiva sobre a relação entre regulação e mercado ilegal.
A primeira medição não permite determinar o tamanho do mercado ilegal nem afirmar se ele diminuiu ou aumentou como consequência da regulação.
O próprio Trimbos destaca que não foram encontradas diferenças claras entre os municípios participantes e os de comparação em relação ao mercado ilegal.
Isso significa que o resultado mais seguro, neste momento, é mais simples: a oferta regulada passou a coexistir com um mercado ilegal que continua sendo utilizado.
Os pesquisadores também identificaram mudanças na organização do mercado.
Entrevistas com municípios, coffeeshops, produtores e órgãos de fiscalização indicaram maior interação entre os diferentes participantes da cadeia e mais informações sobre a origem e as condições de produção da cannabis.
Um dos mecanismos utilizados é um sistema de rastreabilidade, que permite acompanhar os produtos desde o cultivo até a venda.
Segundo os participantes entrevistados, procedimentos de produção, transporte e comercialização também passaram a ser mais padronizados.
Para os consumidores, a principal diferença é a possibilidade de adquirir produtos submetidos a controles de qualidade. O governo holandês informa que os produtos da cadeia regulada são testados para determinar, entre outros parâmetros, as concentrações de THC e CBD e a presença de contaminantes como metais pesados e aflatoxinas.
Os resultados publicados agora representam apenas a primeira etapa de acompanhamento do experimento.
A fase experimental começou em 7 de abril de 2025, e a atual pesquisa cobre o período até o primeiro trimestre de 2026. O estudo terá outras medições antes da avaliação prevista para 2028. Uma decisão do governo holandês sobre o futuro do modelo está prevista para 2029.
Além disso, parte do período analisado correspondeu à fase de transição para a nova cadeia. A fiscalização da obrigatoriedade de venda de haxixe regulado começou somente em setembro de 2025.
Por isso, os pesquisadores recomendam cautela na interpretação dos resultados e destacam a necessidade de acompanhar os próximos anos para avaliar possíveis efeitos sobre consumo, saúde pública, segurança, criminalidade, qualidade de vida e mercado ilegal.
A primeira medição não permite dizer que a regulação eliminou o mercado ilegal — nem que o ampliou ou reduziu de forma definitiva.
O que os dados mostram é que uma cadeia regulada pode alterar a oferta, os preços, a rastreabilidade e algumas preferências de consumo sem, pelo menos nesta primeira medição, eliminar a procura por canais ilegais.
A continuidade do estudo deverá mostrar se essas mudanças são características da fase inicial de implantação ou se representam efeitos mais duradouros do modelo.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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