A colheita de cannabis outdoor entra no período de pico nos EUA. Entenda por que a temporada exige tanta mão de obra.

A cannabis cultivada ao ar livre entra, a partir de setembro, em uma das fases mais intensas do calendário agrícola dos Estados Unidos. Conhecido no setor como Croptober, o período concentra a colheita de plantas cultivadas outdoor e aumenta rapidamente a demanda por trabalhadores temporários.
Segundo a empresa de recrutamento Vangst, em entrevista para o MJBizDaily, o período entre 15 de setembro e 15 de novembro é a principal janela de contratação para a colheita.
Produtores podem precisar de 10 a 200 trabalhadores adicionais para colocar a safra para dentro, enquanto a Vangst espera emitir para a temporada deste ano cerca de 10 mil formulários W-2 , uma espécie de declaração de salários e impostos para a Receita Federal americana.
Mas por que uma atividade que leva meses para chegar ao ponto de colheita precisa de tanta gente em poucas semanas?
O cultivo outdoor acompanha o ciclo das estações.
Depois de meses de crescimento e floração, as plantas chegam à fase de colheita no fim do verão e no outono do Hemisfério Norte. Como várias plantas de uma mesma propriedade atingem a maturidade em períodos próximos, os produtores precisam retirar uma grande quantidade de material do campo em uma janela relativamente curta.
É essa concentração que transforma setembro, outubro e parte de novembro em um período de intensa atividade.
O fenômeno ganhou o apelido de Croptober, uma combinação das palavras crop (safra) e October (outubro). Embora a colheita não aconteça em uma única data, outubro costuma concentrar boa parte da produção outdoor.
A diferença em relação ao cultivo indoor é importante. Estufas e instalações internas podem trabalhar com ciclos diferentes e produzir ao longo do ano. O fenômeno da temporada de colheita está relacionado principalmente às plantações cultivadas ao ar livre.
A necessidade de mão de obra também está relacionada ao que acontece depois que a planta sai do campo.
A colheita é seguida por uma série de atividades, como manuseio, secagem, poda das flores (trimming), processamento e embalagem.
Algumas dessas tarefas exigem trabalho manual e precisam ser realizadas em sequência. Isso faz com que a demanda por trabalhadores aumente justamente quando a produção chega ao ponto de colheita.
Entre as funções mais comuns está o trimming, que consiste na preparação das flores após a colheita.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis e Berkeley identificou o trimming como uma atividade comum entre trabalhadores sazonais da indústria na região norte da Califórnia.

O principal desafio não é apenas encontrar trabalhadores.
É encontrar muitas pessoas disponíveis ao mesmo tempo, com alguma experiência e que permaneçam durante toda a temporada.
Karson Humiston, fundadora e CEO da Vangst, afirmou ao MJBizDaily que produtores podem precisar de 10 a 200 trabalhadores adicionais. Segundo ela, alguns operadores começam a recrutar ainda na primavera para garantir equipes para o outono.
A competição pode continuar durante a própria colheita. Segundo Humiston, há casos em que produtores perdem trabalhadores no meio da temporada porque outros estabelecimentos oferecem novas oportunidades.
A sazonalidade também ajuda a explicar por que as empresas recorrem a trabalhadores temporários em vez de manter uma equipe desse tamanho durante todo o ano.
Depois que a maior parte da safra é retirada e processada, a necessidade de mão de obra diminui.
A corrida pela mão de obra revela uma característica menos conhecida do mercado americano de cannabis: parte dos trabalhadores que participam da colheita é migrante e se desloca especificamente para a temporada.
Um estudo publicado no American Journal of Industrial Medicine, com pesquisadores da UC Davis e da UC Berkeley, analisou 32 trabalhadores da cannabis na Califórnia.
Entre os participantes, 81,3%, tinham perfil de trabalhadores sazonais que migravam do México ou da América do Sul para a região conhecida como Emerald Triangle, formada pelos condados de Mendocino, Humboldt e Trinity, no norte da Califórnia.
Segundo os pesquisadores, esses trabalhadores chegavam à região durante a temporada de cannabis cultivada ao ar livre, entre setembro e novembro, e depois retornavam para seus locais de origem.
A amostra tinha idade mediana de 32,5 anos. Metade dos participantes era formada por mulheres, 46,9% por homens e 3,1% se identificaram como não binários.
Em relação à origem e à identidade étnica, 56,3% se identificaram como latinos e 65,6% declararam o México como país de origem. O espanhol era falado em casa por 62,5% dos participantes. Além disso, 75% haviam cursado mais de 12 anos de educação formal.
É importante, porém, não transformar esses números em um retrato de toda a mão de obra da cannabis nos Estados Unidos.
Os pesquisadores ressaltam que não existem dados oficiais suficientes para determinar a composição demográfica de toda a força de trabalho da cannabis na Califórnia. A pesquisa foi qualitativa, com uma amostra pequena e recrutamento por indicação entre trabalhadores. Portanto, seus resultados ajudam a caracterizar um grupo específico, mas não permitem afirmar que esse seja o perfil de todos os trabalhadores temporários da cannabis no país.
O estudo também ajuda a entender por que esses trabalhadores são importantes para o funcionamento da cadeia.
Todos os 32 participantes tinham experiência com trimming, e 26 trabalhavam sazonalmente. A maioria dos participantes trabalhava em áreas rurais dos condados de Humboldt, Trinity e Mendocino.
O trabalho pode ser intenso. Os pesquisadores relatam jornadas de 10 a 12 horas entre trabalhadores de trimming, além de tarefas repetitivas e pagamento por produção em alguns casos. O estudo também identificou problemas relacionados às condições de trabalho e alojamento entre trabalhadores sazonais.
Esses aspectos não explicam apenas quem participa da colheita. Eles mostram como a sazonalidade da produção cria uma força de trabalho igualmente sazonal.

Quando a maior parte da produção outdoor é retirada do campo, a cadeia passa para outra etapa.
As flores precisam ser secas, preparadas, processadas e embaladas antes de seguirem para os diferentes destinos comerciais. Por isso, o fim da colheita não significa necessariamente o fim da demanda por trabalhadores.
No caso da Vangst, entre 10% e 15% dos trabalhadores temporários contratados durante a temporada acabam sendo efetivados em funções permanentes nas empresas onde trabalharam, segundo a própria companhia.
O que começa como uma contratação para algumas semanas pode, portanto, se transformar em uma porta de entrada para empregos permanentes na indústria.
A temporada de colheita mostra uma característica importante da cannabis cultivada outdoor: a produção pode ser planejada durante meses, mas uma parcela significativa do trabalho precisa acontecer em uma janela relativamente curta.
Isso cria uma corrida por trabalhadores, aumenta a importância do planejamento das equipes e movimenta atividades que vão muito além do cultivo.
Em 2026, essa pressão já começou antes da chegada de outubro. Produtores americanos estão garantindo equipes com antecedência para evitar ficar sem trabalhadores quando a safra estiver pronta para ser retirada do campo.
O Croptober, portanto, não é apenas o mês da colheita. É o momento em que meses de cultivo chegam simultaneamente à etapa que mais exige velocidade, organização e mão de obra.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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