• 14 de abril de 2021

O que é farmacogenômica e qual a relação com a cannabis?

 O que é farmacogenômica e qual a relação com a cannabis?

Você já ouviu falar do termo? Saiba que o conceito pode ser de grande ajuda para o paciente achar a concentração correta de canabinoides.

Conforme as propriedades terapêuticas da cannabis tornam-se mais populares, mais ela é estudada e compreendida.

A planta é complexa, ela tem centenas de compostos que podem ajudar em várias condições diferentes.

Atualmente sabemos que ela é útil para o tratamento de uma série de condições, como Esclerose Múltipla, Alzheimer, Epilepsia Refratária, Parkinson, dores crônicas e por aí vai.

No entanto, achar uma concentração e dosagem certa para cada condição pode demorar dias e até meses.

Isso porque o nosso Sistema Endocanabinoide, por onde a planta interage, é único para cada um. Por isso, a planta vai reagir de formas diferentes em cada organismo.

Contudo, sabe-se que o canabdiol (CBD), por exemplo, é mais indicado para epilepsia refratária e o tetraidrocanabinol (THC) para Alzheimer, por exemplo. Mas sem as concentrações certas, ou a combinação de canabinoides certos, ainda não é o bastante.

Como então resolver esta questão?

Batemos um papo com o professor de Medicina e Biociências da Universidade Federal da Integração Latino-América (UNILA) e também farmacêutico, Francisney Nascimento sobre o assunto.

O que é farmacogenômica?

Uma das soluções encontradas que pode ser útil na hora de resolver este problema pode estar na farmacogenômica. Mas o que é isso?

De maneira bem simples, ela ajuda a entender o perfil das pessoas que reagem bem ou mal aos tratamentos e o porquê isso acontece.

Embora pouco explorado pelos médicos, a farmacogenômica de cada um pode influenciar na absorção, níveis sanguíneos e duração do efeito da cannabis pelo organismo. Isso pode ser útil na hora de prescrever.

O professor Nascimento explica que ela faz parte do perfil genético de cada pessoa.  Ela mostra a quantidade de enzimas que cada um produz.

As enzimas do sistema endocanabinoide, sejam elas muitas ou poucas, influenciam na duração dos canabinoides da cannabis no organismo.

Isso porque são elas que “quebram” os canabinoides e são responsáveis por eliminar para fora do corpo.

“Alguém que tem pouca enzima, que elimina canabinoide como o THC, por exemplo, a substância vai ficar mais tempo no organismo antes de ser eliminada. A pessoa vai estar mais sensível aos efeitos do THC” complementa o professor.

Ele também ressalta que caso a pessoa tenha muita enzima, o THC logo vai ser eliminado e isso resultará em uma resposta não muito boa.

Por outro lado, se uma pessoa tiver muitas enzimas do sistema endocanabinoide no organismo e fizer um tratamento prolongado de canabinoides, isso também pode gerar um acúmulo da substância e ser um problema.

É importante destacar que a  farmacogenômica influencia não só os canabinoides, mas como o corpo reage aos medicamentos de forma geral.

Farmacogeômica X Biodisponibilidade

O professor Nascimento também complementa que é importante não confundirmos o termo com a biodisponibilidade. Embora também influencie na ação da cannabis no organismo, o conceito é diferente.

“A biodisponibilidade é o quanto do medicamento, no caso canabinoides que você toma, chega ao sangue. Por exemplo, se são 10 miligramas, é saber quanto miligramas chegam à circulação sanguínea e fica biodisponível para fazer efeito farmacológico de fato.” Explica o professor.

Ele também complementa que a biodisponibilidade também sofre influência da farmacogenômica, mas não só dela. Até a forma de ingerir os canabinoides pode interferir na absorção pelo organismo.

Mundo Ideal

Na teoria, o perfil genético de cada pessoa poderia ser bastante útil na hora de prescrever um remédio. Principalmente para doenças refratárias, que são conhecidas por resistirem a medicamentos, mas na prática não é assim.

Exames de farmacogenômica são capazes de ajudar a identificar o perfil genético de canabinoide de cada um.

O professor Nascimento explica que eles podem ajudar a entender se o paciente produz muita ou pouca enzima canabinoide, o que ajuda o médico a prescrever uma dose maior ou menor de canabinoides.

“Exames como este são bastante caros e levam tempo. Mas para pessoas que não respondem ao tratamento, o ideal é investigar estas funções, para saber se os problemas estão aí, acrescenta.

No Brasil, a cannabis só pode ser recomendada quando nenhum outro tratamento funciona.  Isso faz com que muitas famílias precisem passar por uma série de anticonvulsivantes, por exemplo, até chegar nela.

São geralmente remédios fortes e na maioria das vezes, mais de um, que dopam os pacientes e não ajudam a zerar as convulsões.

 

Quando finalmente se introduz a cannabis, achar um remédio certo e uma concentração certa leva tempo e também gastos.

Avatar

Tainara Cavalcante

Jornalista e produtora de conteúdo no Cannalize. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.

Mais Notícias