• 31 de julho de 2021

Cannabis no tratamento de espasmos musculares

 Cannabis no tratamento de espasmos musculares

Estudos já mostraram que a planta é uma importante aliada no tratamento até de espasticidade e doenças relacionadas.

 No mês passado, a ex-presidente Dilma Rousseff gravou um vídeo agradecendo uma associação por disponibilizar o óleo de cannabis para a sua mãe nos últimos meses de vida.

Dilma Jane Rousseff  tinha 95 anos e um Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico. Além disso, estava sofrendo de espasmos e cefaléia crônica. 

Ela morreu em julho de 2019 e viveu boa parte da vida em Belo Horizonte. No vídeo, a ex-presidente diz que ela pode viver o último ano da sua vida sem dores, ainda   acrescentou que o óleo da planta “devolveu a dignidade” à sua mãe. 

Mas como a cannabis pode ajudar? 

O que são espasmos musculares

Primeiro, vamos entender o que causa as contrações musculares involuntárias. Elas acontecem nas fibras dos músculos e por muitas vezes podem ser bem dolorosas. 

Contudo, elas não são aleatórias. Elas costumam doer para sinalizar que algo está errado, e ficam enrijecidas, para proteger de outras lesões no local.

A ação é uma resposta do próprio organismo à inflamações ou lesões nos músculos, que podem ocorrer por vários fatores, como a má circulação do sangue, desidratação, falta de nutrientes essenciais, o mau funcionamento dos nervos, reação de algum medicamento e até a baixa reserva de íons nos músculos, sim estamos falando dos átomos do nosso corpo.

No entanto, as famosas cãibras quase sempre são resultado do estresse ou do esforço físico. 

Os espasmos costumam ser mais frequentes nos músculos da coxa, do dorso e da panturrilha. No entanto, também podem aparecer em outros músculos menores. 

Quando as contrações acontecem nas costas, pode ser resultado de lesões ou danos nas vértebras, dos discos invertebrais e até nos ligamentos que conectam as vértebras.

Eles também podem ser resultado de algumas doenças, como esclerose, tétano, cólera e condições relacionadas a lesões na medula. 

Como acontecem

As cãibras involuntárias são acionadas quando o nervo é estimulado ou danificado. Então, quando ele se dirige a uma fibra muscular, elas podem sofrer uma contração. 

Outra explicação também pode estar relacionada ao desequilíbrio no nível hidroelétrico do corpo. Uma espécie de proteção do organismo que sinaliza quando algo não vai bem com os músculos.

Os espasmos podem ser tônicos ou clônicos. O primeiro cenário é quando acontece o enrijecimento prolongado dos músculos. Já o segundo caso, são uma série de contrações que vêm e voltam. 

Eles podem variar de intensidade também. Desde “tremeliques” nas pálpebras à câimbras dolorosas. Em caso de espasticidade, até a perda do movimento.

Foto: Getty Images

 

Diagnóstico e tratamento

Vistos ou não pelo médico na consulta, os espasmos só são diagnosticados com certeza, através de exames de laboratório e de imagem para saber a origem. 

Elas podem ser preocupantes quando envolvem alterações intestinais ou na bexiga, fraqueza extrema nos braços e pernas e até dores que impedem de dormir. Isso pode estar ligado a alguma condição.

Os espasmos também podem ser sinal de espasticidade, um distúrbio no controle muscular que é caracterizado por rigidez nos músculos, tensão, aumento do reflexo dos tendões e principalmente a falta de controle muscular, que pode resultar na perda total dos movimentos de um músculo.

Estes são bem mais sérios, tanto nos danos ao paciente quanto à condição que ela pode carregar. Muitas vezes estão relacionadas a lesões cerebrais, Acidente Vascular Cerebral (AVC) e paralisia.

O tratamento sempre vai depender da causa. Ele pode variar entre massagens, acupuntura, fisioterapia, compressas e medicamentos, que podem evoluir para anti-inflamatórios e relaxantes musculares.

No caso da espasticidade, cirurgias e hidroterapias também podem ser necessárias.

Cannabis como tratamento

Normalmente os espasmos são prevenidos com exercícios físicos ou até mesmo só com alongamentos, além de uma boa hidratação. Contudo, quando são associadas a alguma condição, elas tendem a ser mais resistentes. Ou a interação com medicamentos, perigosa.

Em doenças como epilepsia, esclerose múltipla, Parkinson e diabetes, os espasmos precisam ser vistos com mais cautela. 

Doenças neurológicas

E como a cannabis se encaixa nisso tudo? Primeiro, que se o problema for alguma doença citada no parágrafo acima, já há estudos mostrando a eficácia do óleo feito com a planta para o tratamento não dos espasmos, mas da das doenças em si.

No Brasil, por exemplo, ela é bastante indicada em espasmos relacionados à esclerose múltipla e epilepsia. Um estudo feito em 1999, por exemplo, já mostrava a influência do extrato da planta nos espasmos causados pela epilepsia. 

Outros trabalhos também mostram a efetividade do fitofármaco nos espasmos causados pela Síndrome de Dravet e  a esclerose.

Isso porque ela trabalha no Sistema Endocanabinoide, um sistema que funciona a nível celular e ajuda a equilibrar várias funções do nosso corpo. Este sistema também influencia o sistema nervoso central, por isso é tão eficaz em doenças neurológicas. 

A cannabis é um tratamento alternativo que ajuda a relaxar os músculos. Em estudos que envolvem doenças que causam espasmos, o fitofármaco serviu de aliado para combater a rigidez muscular, inflamação que contribui para danos nos nervos e claro, os espasmos.

Imagem: Stock Photos

Controle dos espasmos

Mas isso não quer dizer que ela também não trate apenas as contrações. Hoje, até mesmo atletas buscam a alternativa para servir de aliada a treinos e prevenir inflamações nos músculos. No Brasil, o uso da cannabis no esporte virou até parte de um Reality Show. 

Hoje é possível encontrar relatos de pessoas que conseguiram controlar os espasmos através da cannabis. Um exemplo disso, é a senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP).

A senadora teve um acidente de carro há 25 anos e ficou tetraplégica. Foi a cannabis medicinal que a ajudou na recuperação, e no seu bem estar hoje.  

A cannabis já havia a ajudado a controlar os espasmos musculares e recuperar alguns movimentos do pescoço.

Mara Gabrilli tentou se tratar com o Purodiol, remédio à base da planta que tem o famoso Canabidiol (CBD), mas não um componente chamado tetra-tetraidrocanabinol (THC), responsável pelas reações alucinógenas da maconha.

No entanto, os seus espasmos pioraram ao invés de melhorar. Por isso, sempre quando traz o assunto, ela enfatiza o poder do THC.  

Estudos 

Pesquisas sobre a cannabis no controle de espasmos e até da espasticidade já viraram notícia.  Há até um remédio feito da cannabis e aprovado no Brasil que se mostrou eficaz em casos mais graves.

Um estudo publicado em 2018 na revista The Lancet Neurology, por exemplo, mostrou que o Mevatyl, também conhecido como Sativex ou Naxibol, é remédio que pode ser de grande ajuda para doenças neuromotoras.

A pesquisa, realizada na Itália, mostrou que o remédio pode ser de grande ajuda até mesmo para organismos que são resistentes a remédios convencionais para dor e espasticidade. 

O remédio foi feito para tratar Esclerose Múltipla, e foi o primeiro medicamento à base da planta a ser autorizado no país. Como no caso da senadora Mara Gabrilli, para o Mevatyl ajudar no controle dos espasmos, ele precisa de uma quantidade maior de THC. 

Não só esse, mas vários outros estudos indicam as propriedades medicinais da planta para ajudar no tratamento relacionado à condição.

A cannabis também ajuda na tolerância. Outra pesquisa feita em 2009 mostrou que os extratos do fitofármaco produziram alívio na intoxicação e outros efeitos, comparados a remédios.

Outro estudo mostrou até que o fumo da cannabis, ou a famosa maconha, ajudaram a diminuir a espasticidade muscular de 112 usuários em 1997.

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Tainara Cavalcante

Jornalista e produtora de conteúdo no Cannalize. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.

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