• 8 de maio de 2021

A cannabis medicinal no tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático

 A cannabis medicinal no tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático

Cada vez mais pessoas estão usando a cannabis para tratar a ansiedade e os estudos sobre a relação não são poucos, eles mostram que a planta pode ajudar e muito.

Já falamos aqui dos benefícios da cannabis no tratamento da ansiedade de maneira geral. Mas agora, vamos focar mais especificamente como ela age no Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Passar por situações difíceis de medo, estresse ou frustração pode resultar em traumas, que se não tratados, podem virar o distúrbio de Estresse Pós-Traumático. 

Ele é um tipo de ansiedade extrema que afeta de 15% a 20% das pessoas que passam por algum tipo de abalo e/ou trauma.

O TEPT é também um transtorno mental que carrega vários outros problemas, como depressão, ansiedade potencializada e até comportamentos suicida. Pacientes com o distúrbio, tendem a buscar ajuda apenas dois anos depois do ocorrido.

O distúrbio começou com outro nome. Antes, chamado de estresse de combate, começou a ser caracterizado depois da Guerra Civil Americana, e de lá para cá teve diversos nomes. 

Em 1970 os psiquiatras americanos começaram a realizar pesquisas com soldados que voltaram da Guerra do Vietnã, onde listaram 27 “sintomas comuns” da síndrome.

Foi aí que ele foi categorizado diagnosticamente como Transtorno de Ansiedade Pós-Traumático.

Se o Brasil já era o país mais ansioso do mundo, com o crescimento e casos e mortes devido à pandemia de COVID-19, o número aumentou. 

Segundo um estudo da Universidade College London, na Inglaterra, 33% das pessoas que pegaram outros tipos de COVID prevalentes em 2002 e 2012, tiveram TEPT alguns anos depois.

Sintomas

Os sintomas podem vir em diferentes graus e de forma variada. Não se espera que eles aconteçam todos juntos ou até mesmo que haja a manifestação de todos eles, mas devem ser um sinal para buscar ajuda.

  •         Isolamento social. A pessoa tenta se distanciar de tudo o que remete a situação que ela passou, e alguns lugares podem fazê-la recordar;
  •         Lembrar da experiência traumática repetidamente, ela pode vir de forma espontânea e involuntária;
  •         Transtorno obsessivo compulsivo (TOC) também pode ser um sinal de que alguma experiência ruim ainda incomoda muito. Ele é caracterizado por ações repetidas, como um escape para aliviar a tensão;
  •         Negatividade e sentimento de vazio. A pessoa se convence que é incapaz em se proteger dos perigos e não tem muitas esperanças;
  •         Pânico. Aqui é possível que ela tenha algum ataque com sintomas físicos, como aperto no peito, confusão, calor e sensação de morte.
  •         Insônia. A privação do sono também pode vir acompanhada de irritabilidade e problemas de concentração.  

Tratamento

Infelizmente o transtorno não tem cura e pode durar a vida inteira. No entanto, há tratamentos que ajudam a aliviar os sintomas e evitar pioras ou complicações.

No caso, a terapia administrada junto com medicamentos é a melhor solução.

Há outros hábitos que podem ajudar também, como atividades físicas, meditação, ambientes acolhedores e tirando algumas práticas ruins, como vícios, por exemplo.

Infelizmente a taxa de remissão de pacientes com TEPT não é muito alta, e os opióides podem causar vícios.

Tratamento com a cannabis

Talvez você tenha se perguntado como a cannabis pode ajudar em uma doença psicológica e eu vou explicar:

O nosso corpo possui um sistema chamado Sistema Endocanabinóide (SEC). Ele controla a homeostase, ou seja, o equilíbrio de várias funções do corpo, como a fome, o sono e o humor.

Os canais deste sistema estão diretamente ligados ao cérebro, ao Sistema Nervoso Central e também ao Sistema Imunológico. Se alguma parte do corpo não vai bem, é o sistema que avisa o que precisa ser regulado.

Os cientistas acreditam que um evento adverso ou um estresse crônico pode prejudicar a sinalização do sistema. Assim, o cérebro não vê que tem algo de errado.

O SEC funciona com alguns receptores, eles transmitem as informações para as células sobre as mudanças que estão acontecendo. Os mais conhecidos são chamados de CB1 e CB2.

O Sistema Endocanabinóide produz os chamados canabinóides, que atuam a nível celular ativando os receptores.

Quando se tem Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), a ativação desses receptores é extremamente útil, uma vez que o Sistema Endocanabinóide desempenha um papel importante na influência do humor e também na construção da memória.

O receptor CB1 é responsável por uma reação chamada “extinction learning”, que permite que novas memórias substituam a antiga. Isso ajuda o corpo a voltar a sentir estímulos que eram evitados, por causar pânico ou sentimentos ruins.

A ciência tem descoberto que a ansiedade extrema, que causa o transtorno, por estar relacionada a falta de canabinóides no corpo, o que consequentemente está impedindo que novas memórias encubram as traumáticas.

THC x CBD

A cannabis medicinal possui canabinóides e  quando eles entram no organismo podem agir como uma espécie de reforço para os nossos endocanabinóides.  Os mais famosos são o canabidiol (CBD) e o  tetra-tetraidrocanabinol (THC).

O THC é o composto responsável por dar as reações alucinógenas da cannabis. Ele também é usado para a fabricação de remédio e o fumo também pode ser terapêutico. No entanto, em doses altas, ele pode acabar piorando a ansiedade.

Ele faz o coração bater mais rápido e consequentemente, acelera os pensamentos também. Embora cause uma sensação relaxante nos primeiros momentos do fumo, ele pode trazer uma sensação pior depois.

Por isso, os testes de dosagem e tipos de uso precisam ser feitos com o acompanhamento de um médico.

Já o CBD é cada vez mais usado para tratar ansiedade, principalmente porque não possui as reações alucinógenas, e pode ser usado para bloquear os efeitos negativos do THC.

Atualmente, medicamentos para os mais diversos tipos de doenças feitos com o canabidiol, levam pequenas doses de THC para potencializar os efeitos e causar o famoso Efeito Entourage.

O canabidiol pode ser efetivo no combate aos sintomas da ansiedade e consequentemente de TEPT, mas também precisa ser usado de forma moderada. O uso exagerado pode trazer consequências.

Estudos

Há uma pesquisa em desenvolvimento que visa estimular o receptor CB1 para aliviar os sintomas de TEPT e quem sabe até curar. O professor psiquiatra R. Andrew Sewell, da Universidade de Yale que está conduzindo o estudo, é otimista.

Outra pesquisa recente, publicada em 2020 pela Universidade de Washington, nos Estados Unidos, mostrou que cada vez mais pacientes com o transtorno estão buscando alívio na cannabis medicinal.

 Carrie Cuttler, um dos autores do estudo, acredita na potência do CBD e do THC juntos, no que chamamos de Efeito Entourage. Há estudos que mostram que um canabinóide pode potencializar até 10 vezes o efeito do outro no organismo.

Uma metanálise  feita em 2015, publicada no American Journal of Health-System Pharmacy, mostrou que militares veteranos que usaram cannabis para tratar TEPT tiveram uma diminuição na gravidade dos sintomas da condição, como a redução da ansiedade, estresse e insônia.

Outra pesquisa de 2014 também tem mostrado os benefícios. Os cientistas compararam pacientes que utilizaram a planta e os que não utilizaram, chegando à conclusão de que àqueles que consumiram a planta medicinal, tiveram uma redução de 75% maior, em comparação com o outro grupo.  

A adesão cada vez maior de pessoas que estão optando pelo tratamento alternativo, tem crescido, sobretudo nos Estados Unidos. Tanto que os comentários dos pacientes com TEPT foram acrescentados em uma petição feita ao Departamento de Saúde do Arizona, que exige que o distúrbio seja acrescentado na lista de doenças que a cannabis pode tratar.

No entanto, é importante lembrar que os estudos ainda são insuficientes para batermos o martelo.

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Tainara Cavalcante

Jornalista e produtora de conteúdo no Cannalize. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.

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