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Restrição ao cânhamo pode fechar 68% das empresas nos EUA



15/09/2026


De onde vem o limite de 0,3% de THC no cânhamo

Estudo projeta perdas bilionárias para o setor americano; mudança também pode afetar fornecedores de produtos de cannabis para o Brasil

Um novo estudo estima que 68,1% das empresas americanas de canabinoides derivados do cânhamo poderiam encerrar as atividades caso as novas restrições federais entrem em vigor como estão previstas.

A projeção aparece no 2026 U.S. Hemp Cannabinoid Report, produzido pela consultoria Whitney Economics a partir de uma pesquisa com 496 empresas em 35 estados americanos. O levantamento foi realizado em junho e julho deste ano.

O estudo dimensiona o possível impacto econômico de uma mudança na definição federal de cânhamo aprovada em 2025. A regra reduz significativamente a quantidade de THC permitida em determinados produtos e passa a considerar também o THC total, incluindo o THCA.

A maior parte das novas restrições, que entraria em vigor em novembro, foi adiada para 11 de dezembro de 2026. O prazo adicional permite que o Congresso americano discuta possíveis alterações na legislação.

O que está mudando nos EUA

A mudança começou com a revisão da definição federal de hemp, o termo usado nos Estados Unidos para designar o cânhamo.

Desde a Farm Bill de 2018, o critério federal considerava principalmente a concentração de delta-9 THC, com limite de 0,3% do peso seco.

A nova legislação amplia esse cálculo para o THC total, incluindo o THCA, e estabelece restrições para outros canabinoides com efeitos semelhantes ao THC.

Para determinados produtos finais derivados do cânhamo, a regra estabelece um limite de 0,4 miligrama por embalagem para a combinação de THC total e outros canabinoides abrangidos pela legislação.

Na prática, a mudança pode atingir produtos como gummies, bebidas e outros alimentos com canabinoides que ganharam espaço no mercado americano.

A Cannalize já explicou como essa alteração pode afetar produtos vendidos atualmente nos Estados Unidos.

Leia também: Entenda como as mudanças na lei dos EUA podem afetar gummies com THC

Por que o impacto econômico pode ser tão grande

A Whitney Economics estima que o mercado americano de canabinoides derivados do cânhamo tenha alcançado US$ 38,7 bilhões em valor potencial de mercado em 2026.

Segundo a consultoria, o segmento movimenta uma cadeia que envolve aproximadamente 350 mil empregos, associados a US$ 13,9 bilhões em salários.

É nesse mercado que a mudança regulatória pode produzir seus maiores efeitos.

Entre as empresas pesquisadas pela Whitney Economics:

  • 68,1% disseram que fechariam as operações;
  • 15,5% esperam precisar demitir funcionários;
  • 6,9% pretendem continuar operando com receita menor;
  • 3,2% consideram mudar de localização.

É importante fazer uma ressalva: esses números representam as respostas das empresas pesquisadas, e não uma constatação de que 68,1% de todas as empresas americanas efetivamente fecharão.

A partir das respostas, a consultoria modelou possíveis efeitos para o mercado nacional.

As perdas projetadas

Se as regras forem aplicadas como estão hoje, a Whitney Economics estima:

  • redução de US$ 35,1 bilhões a US$ 41,3 bilhões na receita anual do setor;
  • eliminação de 29.523 a 36.744 empregadores;
  • deslocamento de 188.961 a 225.861 trabalhadores;
  • perda de US$ 7,5 bilhões a US$ 8,9 bilhões em salários;
  • redução de US$ 1,2 bilhão a US$ 1,5 bilhão na arrecadação estadual.

São cenários econômicos, e não perdas já realizadas.

O adiamento não encerrou a discussão

Em setembro, o governo americano adiou para 11 de dezembro a entrada em vigor da maior parte das novas restrições.

A mudança deu ao Congresso mais 29 dias para discutir alternativas. A decisão não cancelou a alteração na definição federal de cânhamo.

Entre as alternativas discutidas estão modelos que mantenham determinados produtos no mercado, mas estabeleçam regras específicas para testes laboratoriais, rotulagem, embalagem, idade mínima e tributação.

Até o momento, porém, a legislação ainda pode mudar.

Leia também: EUA adiam restrições a produtos de cânhamo com THC

O que isso pode mudar para o Brasil

A mudança americana não altera diretamente a legislação brasileira. O Brasil possui suas próprias regras sanitárias e regulatórias para produtos de cannabis.

O impacto para o país pode aparecer, principalmente, pela cadeia internacional de fornecimento.

A Cannalize já mostrou que empresas americanas participam do mercado brasileiro de cannabis e que alterações na disponibilidade de produtos nos Estados Unidos podem afetar fornecedores e importadores.

Se fabricantes americanos reduzirem a produção ou deixarem determinadas categorias de produtos, empresas brasileiras que dependem desses fornecedores podem precisar buscar alternativas em outros mercados.

Esse movimento pode aumentar a relevância de fornecedores de países como Colômbia e Uruguai, que já participam do mercado internacional de cannabis e possuem operações voltadas ao fornecimento para outros países.

Mas existe uma diferença importante: um produto disponível no mercado americano não pode ser automaticamente comercializado no Brasil. A entrada de produtos de cannabis no país depende das regras sanitárias brasileiras e das autorizações aplicáveis.

O caso americano mostra um dilema regulatório

O debate nos Estados Unidos vai além da disputa sobre o limite de THC.

A questão central é como criar uma estrutura regulatória capaz de diferenciar cânhamo industrial, produtos não intoxicantes e produtos com potencial psicoativo, sem produzir efeitos econômicos desproporcionais.

O próprio crescimento do mercado ajuda a explicar a dimensão do problema.

Segundo a Whitney Economics, o mercado de canabinoides derivados do cânhamo cresceu 36,3% desde 2023, chegando a US$ 38,7 bilhões em valor potencial. O segmento representa cerca de 22% de um mercado americano de cânhamo estimado em mais de US$ 175 bilhões, considerando também fibra, grãos e sementes.

Para o Brasil, acompanhar essa discussão interessa menos pelo tamanho do mercado americano em si e mais pelo que ela revela sobre os efeitos econômicos de uma mudança regulatória sobre produtos de cannabis.

Enquanto o Congresso americano decide se mantém, altera ou substitui as novas regras, empresas, fornecedores e consumidores continuam sem saber exatamente qual será o desenho definitivo desse mercado.

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Lucas Panoni

Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.