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Os próximos quatro anos: o que esperar para a cannabis?

Os próximos quatro anos: o que esperar para a cannabis?

A reeleição de Lula, o perfil conservador do Congresso e as mudanças regulatórias devem influenciar o futuro da cannabis medicinal no Brasil. O desafio será ampliar o mercado sem deixar o acesso ao tratamento em segundo plano.

O mercado brasileiro de cannabis medicinal se aproxima de R$ 1 bilhão. Agora, uma questão ganha importância: como o setor vai evoluir até 2030?

A resposta depende de vários fatores. Entre eles estão as decisões do governo federal, a atuação do Congresso, as regras sanitárias e as condições de acesso dos pacientes. Além disso, as mudanças internacionais podem abrir oportunidades para a indústria ou criar novas restrições.

Neste artigo, analisamos o balanço dos últimos quatro anos e os principais fatores que podem influenciar a cannabis medicinal no próximo mandato.

O que mudou na cannabis medicinal entre 2023 e 2026?

O Brasil avançou na regulamentação da cannabis medicinal nos últimos quatro anos. No entanto, questões sobre cultivo, produção e acesso continuam em discussão.

Em novembro de 2024, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconheceu a possibilidade de autorizar empresas a cultivar cânhamo industrial para fins medicinais e farmacêuticos. A decisão estabeleceu como referência o teor de THC inferior a 0,3%. Também determinou que a atividade deveria seguir regras específicas.

A decisão abriu caminho para uma nova etapa regulatória. Em fevereiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou normas para o cultivo, a pesquisa e a produção de cannabis medicinal.

As regras estabeleceram requisitos para autorização, rastreabilidade e controle sanitário. A agência também atualizou o marco regulatório para a fabricação e a importação de produtos de cannabis. A RDC 1.015/2026 entrou em vigor em maio deste ano.

Essas mudanças criaram novas condições para empresas e pesquisadores. Contudo, a existência de normas não garante que todos os modelos de acesso tenham as mesmas oportunidades.

As associações de pacientes, por exemplo, precisam cumprir requisitos específicos. A RDC 1.014/2026 criou um instrumento regulatório para essas organizações sem fins lucrativos, mas não autorizou a comercialização de seus produtos.

Além disso, a aplicação das regras exige acompanhamento e fiscalização. Por isso, o próximo mandato será importante para avaliar como as normas funcionarão na prática e quais questões ainda precisarão de ajustes.

Lula e Flávio Bolsonaro: o que os projetos políticos podem significar?

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente em 25 de outubro de 2026. Ele recebeu 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) obteve 48,21%. O resultado foi anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Confira os dados oficiais.

A reeleição mantém o atual grupo político no Executivo. Entretanto, isso não significa que todas as pautas da cannabis medicinal avançarão automaticamente.

Durante o governo Lula, o país avançou na regulamentação sanitária, inclusive após a decisão do STJ sobre o cânhamo. Ao mesmo tempo, a construção das regras exigiu prazos adicionais e discussões entre diferentes órgãos.

Agora, o governo precisará acompanhar a implementação das normas e coordenar as políticas relacionadas ao setor. Também terá de negociar com o Congresso para avançar em propostas que dependam de mudanças legislativas.

Flávio Bolsonaro representou uma alternativa política associada à direita extrema. Um exemplo de suas inclinações é a PEC 45/2023, da qual é coautor. A proposta busca incluir na Constituição um mandado de criminalização da posse e do porte de entorpecentes sem autorização ou em desacordo com a legislação.

O Senado aprovou a PEC em abril de 2024 e a encaminhou à Câmara dos Deputados.

Apesar de não ter entrado em vigor ainda, a iniciativa representa uma abordagem penal mais rigorosa em relação às drogas. Por isso, é relevante para o debate sobre cannabis e política de drogas.

No entanto, é importante distinguir as diferentes modalidades de uso. Cannabis medicinal, cânhamo industrial, cultivo associativo e uso adulto têm enquadramentos jurídicos distintos. Uma proposta sobre criminalização da posse e do porte não equivale, por si só, a uma proibição específica dos tratamentos medicinais autorizados.

A comparação entre os projetos políticos deve considerar essas diferenças. Mais do que presumir o que cada governo faria, precisamos acompanhar suas propostas, decisões e articulações institucionais.

Congresso conservador: quais são os limites para a regulação?

O Congresso terá papel central na agenda da cannabis nos próximos quatro anos. No entanto, a presença expressiva de forças conservadoras pode dificultar algumas propostas relacionadas à política de drogas.

Isso porque o Legislativo não atua como um bloco único. Os parlamentares podem ter posições diferentes sobre cannabis medicinal, pesquisa científica, produção agrícola e associações de pacientes.

Se a PEC 45/2023 ilustra uma das disputas em curso, outras iniciativas podem priorizar a pesquisa, a produção nacional ou o desenvolvimento econômico.

Nesse cenário, a regulamentação das associações merece atenção. Essas organizações já atendem pacientes, mas precisam de regras claras para suas atividades. Critérios bem definidos podem reduzir a insegurança jurídica e orientar a fiscalização.

A produção nacional também dependerá da implementação das normas sanitárias. Empresas e pesquisadores precisarão cumprir os requisitos aplicáveis a cada atividade. Além disso, a autorização regulatória precisará se traduzir em produção efetiva e disponibilidade de produtos.

Portanto, o desafio será conciliar fiscalização, segurança jurídica e diferentes modelos de acesso. O resultado dependerá tanto das decisões do Executivo quanto da capacidade de articulação no Congresso.

Estados Unidos e Argentina: dois caminhos para a cannabis

O cenário internacional também pode influenciar o futuro da cannabis medicinal no Brasil. Estados Unidos e Argentina oferecem exemplos de como mudanças regulatórias afetam a indústria.

Estados Unidos: mudanças podem restringir produtos com THC

Nos Estados Unidos, uma proposta legislativa ligada à Farm Bill de 2026 busca restringir determinados produtos intoxicantes derivados do cânhamo. Entre eles estão gummies e bebidas que contêm THC.

A proposta prevê mudanças na definição federal de cânhamo e nos limites de THC permitidos nos produtos. Se as restrições avançarem, fabricantes poderão precisar reformular produtos ou rever suas operações.

O debate envolve segurança sanitária, fiscalização e concorrência. Parte do setor defende regras mais rígidas para produtos vendidos fora dos canais tradicionais de cannabis licenciada. Por outro lado, empresas alertam para os impactos econômicos de mudanças abruptas.

O caso mostra que o crescimento de um mercado não garante estabilidade regulatória. Alterações legais podem mudar as condições de produção e comercialização, mesmo quando um segmento já está estabelecido.

Essas mudanças também podem afetar fornecedores internacionais e empresas que acompanham as tendências do mercado americano. Leia a análise da Cannalize sobre as mudanças na lei dos EUA.

Argentina: novas possibilidades para a indústria

Na Argentina, mudanças regulatórias buscam criar novos caminhos para o desenvolvimento da indústria de cannabis. O debate envolve condições de produção, licenciamento e oportunidades para diferentes atividades econômicas ligadas à planta.

Essas iniciativas mostram como as regras podem influenciar a organização de uma cadeia produtiva. Entretanto, os resultados dependem da aplicação das normas, da fiscalização e da capacidade das empresas de transformar autorizações em produção efetiva.

A experiência argentina oferece uma referência para o Brasil, mas não um modelo que possa ser reproduzido automaticamente. Cada país tem regras, estruturas produtivas e condições de mercado próprias.

A comparação entre os dois países reforça um ponto importante. Nos Estados Unidos, mudanças propostas podem restringir determinados produtos. Na Argentina, novas regras buscam ampliar as possibilidades de atuação industrial.

Para o Brasil, a questão será construir um ambiente regulatório que ofereça previsibilidade e mantenha o controle sanitário. Isso pode favorecer investimentos e produção nacional, desde que as regras considerem as particularidades de cada atividade. Leia a análise da Cannalize sobre a indústria argentina.

Mercado brasileiro: o que projeta o Anuário da Cannabis Medicinal?

Enquanto o debate político avança, os números mostram a expansão do mercado brasileiro.

O Anuário da Cannabis Medicinal 2025, da Kaya Mind, estima que o mercado passou de R$ 3,7 milhões em 2018 para R$ 970,9 milhões em 2025. O relatório também apresenta projeções para 2026 e 2027.

AnoValor estimado
2023R$ 699,4 milhões
2024R$ 852,6 milhões
2025R$ 970,9 milhões
2026*R$ 1,123 bilhão
2027*R$ 1,276 bilhão

<small>Fonte: Kaya Mind, Anuário da Cannabis Medicinal 2025, página 111, gráfico 18. Os valores de 2026 e 2027 são projeções publicadas no relatório.</small>

Os números apontam para um mercado em expansão. Entretanto, o ritmo de crescimento vem diminuindo.

Em 2023, o crescimento estimado foi de 92%. Em 2024, caiu para 22%. Já em 2025, ficou em 14%.

Essa desaceleração não significa necessariamente retração. O mercado continua crescendo em valor absoluto, mas parte de uma base maior. Por isso, as taxas percentuais tendem a ter um peso diferente ao longo do tempo.

A Kaya Mind projeta que o mercado alcance R$ 1,123 bilhão em 2026 e R$ 1,276 bilhão em 2027. Esses valores ajudam a dimensionar as expectativas para o setor, mas não representam resultados confirmados.

Mais pacientes, mas acesso desigual

O crescimento do mercado acompanha o aumento do número de pacientes. A Kaya Mind estima 873.111 pessoas atendidas em 2025 pelas três principais vias de acesso: importação, farmácias e associações. Isso representa um aumento de aproximadamente 30% em relação a 2024.

O relatório também identificou pacientes em 4.730 municípios brasileiros desde 2019. No entanto, a presença de pacientes em uma cidade não garante que o tratamento esteja disponível localmente ou que seja financeiramente acessível.

A distribuição entre as vias de acesso ajuda a entender essa diferença. Em 2025, a estimativa era de 40,5% dos pacientes por importação, 33,6% por farmácias e 25,9% por associações.

Cada via tem condições próprias de acesso, oferta e custo. Portanto, o crescimento do mercado não representa uma experiência igual para todos os pacientes.

O anuário também apresenta diferenças nos preços médios dos óleos. Em 2025, os valores estimados foram de R$ 679 nas farmácias, R$ 550 na importação e R$ 363 nas associações.

Esses valores dependem dos produtos e da metodologia considerados no levantamento. Assim, não representam uma comparação universal entre tratamentos equivalentes. Ainda assim, mostram por que o faturamento total não basta para avaliar o acesso.

Até 2030: o que pode sustentar o crescimento?

A projeção da Kaya Mind termina em 2027. Por isso, não é possível tratar os valores do relatório como uma previsão oficial para 2030.

Ainda assim, os dados permitem identificar fatores que podem influenciar o mercado nos próximos anos.

O primeiro é a implementação das regras sanitárias. A produção nacional poderá abrir oportunidades para empresas e pesquisadores. No entanto, isso dependerá das autorizações, dos investimentos e da capacidade de colocar produtos no mercado.

O segundo fator é a segurança jurídica. Regras claras podem favorecer o planejamento das empresas e das associações. Por outro lado, mudanças frequentes ou incertezas sobre a aplicação das normas podem dificultar investimentos e operações.

O terceiro é o custo do tratamento. O aumento do mercado não garante que mais pacientes consigam pagar pelos produtos. Para ampliar o acesso, será necessário acompanhar os preços, a disponibilidade e a distribuição dos diferentes canais.

Por fim, a política de drogas continuará influenciando o ambiente regulatório. As decisões do governo, do Congresso, da Anvisa e do Judiciário podem alterar as condições de atuação de empresas, associações e pacientes.

O mercado brasileiro já alcançou uma escala relevante. Agora, o desafio é transformar esse crescimento em uma estrutura mais previsível e acessível.

Até 2030, o resultado dependerá da combinação entre regulação, produção, investimento e acesso. A questão central não será apenas quanto a cannabis medicinal movimentará, mas quem conseguirá participar desse crescimento e em quais condições.

Lucas Panoni

Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.