O glykypikron de Safo por Anne Carson, Nobel de Literatura de 2026 é a melhor imagem para o efeito bifásico dos canabinoides

Doce e amargo: o que o Nobel de Literatura diz sobre a cannabis
Na segunda-feira, 5 de outubro, a Assembleia Nobel do Instituto Karolinska concedeu o Nobel de Medicina a Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel por descobertas que levaram ao desenvolvimento da optogenética: usar luz para ligar e desligar neurônios específicos, com precisão de milissegundos.
Três dias depois, a Academia Sueca deu o Nobel de Literatura a Anne Carson. O motivo, segundo a Academia, foi uma obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea.
Uma descoberta permite iluminar circuitos neuronais. A outra reacende palavras de 2.600 anos. Parecem conversas distintas. Não são.
Canadense, nascida em Toronto em 1950, Carson é classicista de formação e lecionou em Princeton, McGill, Michigan e NYU. Traduziu Safo, Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Escreve livros que se recusam a caber num gênero só: ensaio, verso, tragédia, libreto e quadrinho, eventualmente na mesma obra.

Anne Carson. Foto: Pontus Lundahl/AP
Seu primeiro livro, de 1986, nasceu da tese de doutorado e se chama Eros the Bittersweet. É nele que está a ponte com a cannabis.
Num fragmento de Safo, poeta grega do século VII a.C., Eros é chamado de glykypikron. A palavra junta doce (glykys) e amargo (pikros) num único termo.
Carson parte de um detalhe que tradutores costumam desfazer: Safo diz “doceamargo”, não “agridoce”. A ordem importa, porque o doce vem primeiro. E o ponto central é que não se trata de prazer seguido de dor, mas de prazer e dor na mesma experiência, inseparáveis.

Safo admirando o poeta Alceu de Mitilene. Imagem: Domínio Público
Há um segundo movimento no livro. Para Carson, o desejo tem sempre três pontos: quem deseja, quem é desejado e aquilo que se interpõe entre os dois. Tire o terceiro ponto e o desejo desaparece. Em outras palavras, ela descreve o eros como um circuito e não como uma substância.
Quem prescreve cannabis conhece o glykypikron na prática: a mesma molécula que acalma pode angustiar. O fenômeno tem nome, efeito e está documentado em humanos.
Num ensaio randomizado e duplo-cego da Universidade de Chicago, 42 voluntários saudáveis receberam placebo, 7,5 mg ou 12,5 mg de THC oral antes de um teste padronizado de estresse social. A dose menor reduziu o desconforto relatado após o teste. A maior aumentou o humor negativo antes e durante a tarefa [1].
O mecanismo começa a ser entendido e ele é de circuito. Em camundongos, o efeito ansiolítico da dose baixa de um agonista CB1 dependeu dos receptores em terminais glutamatérgicos corticais. O efeito ansiogênico da dose alta dependeu dos receptores em terminais GABAérgicos [2]. Mesmo receptor, neurônios diferentes, sinais opostos.
O doce e o amargo não estão na molécula. Estão no lugar onde ela age.
Carson passou a carreira traduzindo fragmentos e textos em que falta quase tudo. Em “If Not, Winter”, sua tradução de Safo, ela marca com colchetes o que o papiro perdeu. A lacuna vira parte do sentido. Uma palavra isolada diz pouco, mas o quê a cerca decide o que ela significa.
A optogenética levou a neurociência à mesma conclusão. Ao permitir ativar ou silenciar um tipo de neurônio por vez, ela mostrou que perguntar “o que faz o CB1?” é incompleto. A pergunta certa é: o CB1 em qual circuito, em qual terminal, em que momento?
O sistema endocanabinoide funciona como uma gramática. Os endocanabinoides são produzidos no neurônio pós-sináptico e viajam de volta ao terminal pré-sináptico para modular a liberação de neurotransmissores. É uma sinalização retrógrada, que só faz sentido dentro da frase em que aparece.
Carson recusa gêneros fixos para seus livros. O receptor recusa uma função fixa. Os dois Nobel desta semana dizem a mesma coisa por caminhos opostos: o contexto decide.
Nenhum dos dois prêmios tem relação com cannabis. O Nobel de Medicina não premiou pesquisa canabinoide, tampouco Anne Carson escreveu sobre o tema. Um poema de Safo não prova nada sobre o receptor CB1.
O que proponho aqui é uma analogia: uma forma de pensar, não uma evidência. Os dados citados aqui vêm de um ensaio pequeno, com voluntários saudáveis, e de um estudo em animais
Talvez a melhor definição de uma prescrição com fitocanabinoides bem feita esteja numa palavra grega com 2.600 anos. Toda molécula ativa no sistema endocanabinoide carrega o doce e o amargo ao mesmo tempo. O trabalho do médico é encontrar o contexto (a dose, a via, o perfil, o momento) em que o doce vem primeiro.
Safo sabia disso sem receptores. Carson nos devolveu a palavra. A optogenética, agora, nos dá a luz para ver onde ela acontece.
Dr. Guilherme Marques
Dr. Guilherme Marques é diretor médico da Cannect e aprofunda suas percepções sobre a relação entre a cannabis e a sociedade na Cannalize.
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