• 20 de janeiro de 2021

Mirtazapina X Cannabis: é possível substituir?

 Mirtazapina X Cannabis: é possível substituir?

O medicamento normalmente é receitado quando outras opções não funcionam, porém possui uma série de efeitos colaterais. Por isso, podemos trocar pela cannabis?

Em novembro de 2020 um habeas corpus para o plantio de cannabis foi autorizado em decisão judicial. Dessa vez, para um paciente com depressão, que utilizava a planta como único tratamento.

Isso mostra que as propriedades medicinais da planta têm ganhado cada vez mais reconhecimento e alcançado outras patologias, como depressão e ansiedade.

A sua fama também está nos efeitos adversos mínimos, como náuseas, sonolência e até diarreia. No entanto, bem menores que as reações de outros remédios.

Por isso, será que ela pode substituir antidepressivos? Hoje, vamos focar na Mirtazapina.

O que é Mirtazapina?

Talvez você não conheça por este nome, mas ela é a principal composição presente no Remeron, Zispin, Avanza, Remergil, Menelat, Razapina e outros, usados para tratar depressão e ansiedade.

Se trata de um antidepressivo que age diretamente na serotonina, considerada o “hormônio da felicidade”.

Além da substância, a mirtazapina também atua nos receptores de noradrenalina, outro neurotransmissor importante para o sistema nervoso central.

Os dois compostos são extremamente importantes, pois podem influenciar o humor, a ansiedade, o sono, a fome e por aí vai.

No entanto, a mirtazarpina é mais recomendada quando os outros remédios inibidores de serotonina não funcionam. Ou seja, para casos mais graves, o que chamamos de medicamento Dual.

A neurologista Denise Lufti Pedra acrescenta que apesar de não estar escrito na bula, ele também é bastante indicado para tratar insônia, pois um dos seus principais efeitos colaterais é a sonolência.

“A gente usa muito a mirtazapina em doses baixas. Ela tem comprimidos de 15mg, 30mg e 45mg. Normalmente para tratar depressão, são usados de 30mg e 45mg. O de 15 miligramas usamos muito para tratar a insônia. Mesmo em pacientes que não tem depressão.” Ressalta.

Restrições

O médico precisa pensar duas vezes antes de indicar a Mirtazapina aos pacientes, pois a medicação apresenta uma série de contraindicações e efeitos colaterais.

A medicação em pacientes com esquizofrenia ou outros distúrbios psicóticos pode intensificar os sintomas, por exemplo.

A neurologista ainda alerta sobre a interação com o álcool e outras medicações.

Parece que o remédio também não funciona para pacientes com menos de 18 anos. Por isso, ele não é recomendado para crianças e adolescentes.

Também é preciso ter muita atenção a pacientes com condições como:

  •         Diabetes;
  •         Pressão baixa;
  •         Um tipo de glaucoma;
  •         Doenças cardíacas;
  •         Insuficiência renal ou hepática;
  •         Epilepsia;
  •         Síndrome cerebral orgânica;
  •         Pensamentos suicidas;
  •         Distúrbio de micção.

Efeitos colaterais

Além das contraindicações, os efeitos colaterais também não são poucos. Como em vários antidepressivos, eles aparecem de forma intensificada nas duas primeiras semanas, mas diminuem com o passar do tempo.

       As reações mais comuns são:

  •         Sonolência;
  •         Dor de cabeça;
  •         Muita sede;
  •         Sedação;
  •         Ansiedade;
  •         Insônia;
  •         Tremor;
  •         Sonhos anormais ou pesadelos;
  •         Confusão;
  •         Náusea;
  •         Diarreia;
  •         Vômito;
  •         Tontura;
  •         Constipação;
  •         Dores nas articulações;
  •         Dores musculares;
  •         Fadiga;
  •         Alucinações;
  •         Agitação;
  •         Diminuição da sensibilidade;
  •         Inquietação.

 

Aumento de peso. Segundo a neurologista Denise Lufti Pedra, é uma reação muito comum, que também está relacionada ao aumento do apetite. Segundo a médica, há pacientes que engordam até 10 quilos em um mês.

Dificuldade de concentração. No começo, a Mirtazapina pode comprometer a capacidade de concentração dos pacientes. Por isso, é recomendado que na fase inicial do tratamento não dirija, opere máquinas ou qualquer outro exercício que exija a coordenação motora.

Tratamento com a cannabis

Como já falamos aqui, a cannabis pode ser um importante aliado no tratamento de depressão e ansiedade.

Ela funciona através do que chamamos de Sistema Endocanabinoide, que ajuda a equilibrar várias funções do organismo a nível celular.

Através dos canabinoides, produzidos pelo próprio corpo, várias funcionalidades são equilibradas.

Se uma pessoa está com febre, por exemplo, são os canabinoides que ajudam a restaurar a temperatura.

A cannabis também possui canabinoides, que trabalham de maneira bem parecida com os nossos.

O nosso sistema nervoso possui receptores canabinoides, onde a cannabis pode influenciar como uma espécie de reforço aos nossos.  

Dessa forma, o sistema endocanabinoide pode trabalhar como um neuromodulador para o Sistema Nervoso Central, capaz de regular aspectos emocionais, cognitivos, nervoso e processos motivacionais das pessoas.

Na depressão, há uma baixa de canabinoides no cérebro, como a serotonina ou a dopamina. Apesar de serem neurotransmissores, eles também são considerados canabinoides.

Substituição

 No entanto, é importante ressaltar que a troca pela cannabis não é tão simples assim. A neurologista Denise Lutfi Pedra acrescenta ainda que a substituição é progressiva e depende de uma série de fatores, como por exemplo: 

Noradrenalina. Como já falado aqui, o neurotransmissor é o hormônio que mais influencia o humor, a ansiedade, sono e a alimentação. Por isso, é importante estar alerta ao considerar a retirada deste medicamento.

“A mirtazapina mexe com a noradrenalina. Por isso, a gente tem que ter um pouco de cuidado, com o paciente principalmente, em relação a pressão arterial.” Alerta a neurologista.

Sistema endocanabinoide. É importante ressaltar que cada organismo é único, por isso, a cannabis pode agir de formas diferentes em cada organismo.

Talvez precise de canabinoides diferentes, ou doses diferentes para fazer efeito. A médica acrescenta ainda que antes de tirar a mirtazapina, é preciso entender a ação do fitofármaco no organismo primeiro.

Conforme os resultados, o antidepressivo pode ser desmamado aos poucos. 

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Tainara Cavalcante

Jornalista e produtora de conteúdo no Cannalize. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.

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